Entrevista com Alice Caymmi (2012)




Alice Caymmi no Bar Semente 

Por Márcio Proença

A cantora e compositora Alice Caymmi, filha do cantor e compositor Danilo Caymmi e neta do saudoso ícone da MPB, Dorival Caymmi, se apresenta por todo esse mês de março/12, sempre às quintas-feiras, no Bar Semente, Lapa, RJ.

A artista apresenta músicas de sua autoria que perpassam entre notas de MPB, rock, jazz, bossa e samba, mostrando sua moderna vertente e sua voz de timbre raro, cantando suas letras românticas e densas acompanhada por Flávio Mendes (violão) e Fabiano Salek (percussão).

Por telefone,  a cantora falou, em uma breve entrevista, um pouco sobre o que será sua estreia e também suas influencias musicais.

Alice, primeiramente muito obrigado por me ceder essa entrevista. Bem, o que o público pode esperar desse seu show no Bar Semente, na Lapa, aqui no RJ, a partir dessa quinta-feira? Pode esperar um repertório de músicas autorais e inéditas. Há também versões de músicas que me influenciaram.

Quem são os músicos que estarão presentes no palco com você? Fabiano Salek (percussão) e Flavio Mendes (violão e arranjos).

Vai haver participações especiais? Provavelmente. Mas, ainda, não tem nada certo.

E o seu disco de estréia, qual a previsão de lançamento? Ainda não há uma data de lançamento, mas creio que seja por esse ano.

Qual foi o processo de escolha do repertório para esse show? Márcio, meu trabalho é basicamente autoral e juntei com algumas influencias do que eu tenho ouvido.

E quais são essas influencias, além da música dos seus ilustres e talentosos familiares? Tropicália e Bjork

Quer deixar um recado para os leitores do Sombaratinho? Meu recado é que vão ao show para conhecerem o meu som e também para que eu os conheça. Bjs a todos e até lá.

Obrigado, Alice Caymmi, pela sua presença aqui no Sombaratinho. Obrigada a você, Márcio Proença, por esse espaço tão bacana que é o Sombaratinho. Bjs.

Show com Alice Caymmi

ALICE CAYMMI no BAR SEMENTE

Rua Joaquim Silva, 138,  Lapa, Rio de Janeiro - RJ, 
Fone: (0xx)21 9781-2451
Quintas-feiras de março/12 - dias 01, 08, 15, 22 e 29
Couvert Artístico R$ 20,00

Beto Dourah - Hoje à noite (2001)


Por Márcio Proença

Algumas pessoas não compreenderam a diferença estética na música do cantor e compositor Beto Dourah, relativamente aos Cd’s Lado Zen (98) e Hoje à Noite (2001). Foi apenas uma tentativa de experimentar algumas sonoridades e influências adquiridas durante a formação musical do artista e o convívio com grandes talentos que acabaram por levá-lo a outras estradas. Seu encontro com Rogério Carvalho (músico e produtor), Sidney Brito (teclados e interferências), Fernando Palau (teclados e arranjos), Tex (Guitarras) e Jorge Vercillo (Cantor e Compositor) modificou sua relação com a música, com o som, com a vida.

Durante a produção do cd “Hoje à Noite” começou a visualizar e experimentar as maravilhosas influências absorvidas durante o convívio com estes artistas, pois ficou evidente para ele que não se tratava somente de apresentar sua música e sua poesia. Estava aprendendo e esse aprendizado é constante, permanente e eterno.

Segundo Beto Dourah, em um descontraído bate-papo com o autor dessas poucas linhas, em Brasília, esses músicos são tão fundamentais para o seu som quanto ele mesmo. Um privilégio poder criar música com eles e compartilhar um pouco de suas genialidades. Rogério Carvalho e seu jeito ”black” de cantar sempre o impressionaram e nesse disco ele mais uma vez se destacou com soluções e timbres que reafirmam sua sofisticação como produtor, instrumentista e exímio cantor. Sua guitarra em “Flashback” emite uma sonoridade sofisticada e mágica. Em conjunto com as backing vocals: Gláucia Carvalho, Celi e Virgínia Monteiro deram um tom gospel e sofisticado a esta faixa e ao álbum como um todo, pois estiveram presentes em dez das doze composifaixas.

Finalmente, depois de muitos anos apreciando, e procurando aprender sobre as texturas sonoras da soul music e os ritmos da música negra norte americana, as quais foram “trilha sonora” da sua juventude, quando ouvia em casa The Jackson Five, Ray Charles, Stevie Wonder, e tantos outros fantásticos cantores da extinta Motown, e lógico, cantores e compositores da música brasileira mais próxima desse gênero que foram: Cassiano, Hyldon, Ed Mota, Tim Mia, Claudi Zoli, Altay Veloso, dentre outros, toda essa experiência só poderia levá-lo aos resultados do som que ele hoje faz.

Os resultados estão explicitamente registrados no álbum “Hoje à Noite”, que, além de ter uma excelente qualidade técnica e maravilhosos arranjos, teve grande orgulho e satisfação de ter lançado principalmente pela cordial e maravilhosa participação de Jorge Vercillo, que cantou a faixa “Celestes” e assinou os arranjos vocais da música, esse cantor e compositor de inegável talento da nova geração da música popular brasileira, grande amigo e conterrâneo do qual Beto Dourah é admirador e fã incondicional.

Site oficial de Beto Dourah: http://www.betodourah.com.br

Faixas

01. Charme (Beto Dourah)
02. Anjos (Beto Dourah)
03. Celestes (Beto Dourah)  - Participação especial de Jorge Vercillo
04. Vinte Sóis (Beto Dourah e Edson Júnior)
05. Véu (Beto Dourah e Vivian Lus)
06. Não Sei  (Beto Dourah)
07. Flashback (Beto Dourah)
08. Balé Dos Lábios (Beto Dourah)
09. Irresistível (Beto Dourah)
10. Mais (Beto Dourah e Vivian Lus)
11. Eu Me Rendo (Sérgio Sá)
12. Hoje À Noite (Beto Dourah)

Produzido por: Beto Dourah

gravado nos estúdios:
Acorde e Birdland em Brasília - DF 

Técnicos:
Fernando Palau (Acorde)
Rogério Carvalho (Birdland)

Auxiliar técnico:
Elias Ribeiro (Birdland)

Mixagem:
Rogério Carvalho

Masterização:
Andreiev Kalupniek
A.K. Studio em Brasília - DF

Arte final capa e encarte
Beto Dourah e Kiko Nássi

Fotos
Márcia Kalume

MÚSICOS

Beto Dourah:
voz, back vocals, violão e arranjos

Jorge Vercillo:
voz, backing vocals e arranjos vocais na música “Celestes”

Fernando Palau:
piano, teclados, programação, loop e arranjos

Sidnei Brito:
piano, baixo, teclados, programação, loop e arranjos

Rogério Carvalho:
guitarra, violão, baixo, back vocals

Tex:
guitarra e violão

Gê Mendonça:
baixo

Ticho Lavenère:
bateria e percussão

Pedro Mamede:
bateria

Beto Seba:
sax alto, tenor e soprano

Edinho Silva:
percussão

Gláucia Carvalho:
back vocals

Celi Monteiro:
back vocals

Virgínia Monteiro:
back vocals

Todos os arranjos de back vocals são de autoria de Rogério Carvalho , exceto na música "Celestes" que são de autoria de Jorge Vercillo

A faixa "Celestes" foi gravada em agosto/setembro de 2000, no estúdio Acorde em Brasília-DF, por Fernando Palau e mixada no estúdio Birdland, Brasília-DF, por Rogério Carvalho, exceto a voz de Jorge Vercillo que foi gravada nos estúdios da Warner Chappel (Rio de Janeiro) por Dellano

Pery Ribeiro (RJ, 27/10/1937 – Niterói, 24/02/2012)

Roberto Mescal e Pery Ribeiro

Por Roberto Menescal
(Texto retirado do site oficial de Pery Ribeiro - http://www.preyribeiro.com)

Minha primeira e emocionante lembrança que tenho de Pery, foi de uma gravação de um compacto simples na antiga Odeon, onde Pery cantava uma música que dizia "Há dentro em mim uma dor escondida, bem escondida...." e eu, Luiz Eça, Oscar Castro Neves, e uma amiga nossa, a Climene, que tínhamos um grupo vocal, fazíamos o backing para nosso querido artista. Foi o máximo! Talvez ainda meio desafinado (nosso grupo, é claro), mas a emoção foi total.

Pery com sua antena de desbravador, também me deu um presente inesquecível: em final do ano de 61, eu voltava de Buenos Aires com Maysa e, numa parada em São Paulo para um programa de TV, me colocaram a gravação de Pery de minha música com Boscoli, “O Barquinho" (que Maysa acabara de gravar, mas que ainda não tinha sido lançada), e vi Pery mais uma vez sair na frente, como fez com tantos outros sucessos, inclusive "Garota de Ipanema". Eu como compositor de muita sorte, poderia ter um cd do Pery inteiramente com músicas minhas, pois ninguém me gravou tanto... Eis aí uma idéia para alguma gravadora que tenha esse acervo.

O mais recente presente que Pery me deu, e certamente o mais emocionante, foi uma composição (letra e música dele) onde faz uma homenagem a mim e ao Ronaldo Boscoli, juntando trechos de nossas canções ligadas por versos exatos como só um "craque" da composição poderia fazer, coisa que Pery muito pouco aproveitou em sua carreira de artista. Essa música, “Abraço no Menescal e Boscoli”, foi gravada por Wanda Sá e por mim no nosso mais recente cd "Swingueira", e tem sido o ponto alto de nossos shows, coisa que Pery pôde presenciar numa reação expontânea do público, no show de lançamento do disco no Teatro Rival.

Enfim, nossa ligação não é recente, pois nos conhecemos há mais de 40 anos "nas pedreiras da vida", onde apesar dos quilômetros que muitas vêzes nos separam, temos tido uma convivência muito legal, muito curtida, muito carinhosa.

Me confesso aqui, fã total desse artista que tem uma carreira tão bonita e tão importante para o nosso Brasil.

Beijos
Roberto Menescal

Pery Ribeiro

Nota

O cantor e compositor Pery Ribeiro morreu no final da manhã desta sexta-feira (24) no Rio de Janeiro, aos 74 anos, vítima de infarto agudo do miocárdio.

Segundo Ana Duarte, mulher e empresária de Pery Ribeiro, o velório será na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. O local do enterro ainda não foi definido.

Breve biografia

Filho de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, astros da era do rádio, Pery lançou seus primeiros discos na década de 1960, quando se tornou conhecido por dar voz a canções da bossa nova – foi o primeiro, inclusive, a gravar "Garota de Ipanema", em 1963.

Sua estreia na vida artística, no entanto, foi aos três anos de idade, quando participou da dublagem em português de produções de Walt Disney. Nascido Peri de Oliveira Martins, assumiu o nome artístico de Pery Ribeiro em 1959, por sugestão do radialista César de Alencar.

No ano seguinte, sua mãe, Dalva de Oliveira, gravou uma composição sua, "Não Devo Insistir". Neste mesmo ano, Pery lançou estreou em disco com um compacto duplo e, em 1961, alcançou seu primeiro sucesso, com um 78 rotações que incluía "Manhã de Carnaval" e "Samba de Orfeu".

Seu primeiro LP, "Pery Ribeiro e Seu Mundo de Canções Românticas", saiu em 1962. Sua voz elegante e suave se provou perfeita para a nascente bossa nova, e o resultado foi um de seus maiores sucessos, o disco "Pery É Bossa". No repertório, estava a primeira gravação de "Garota de Ipanema".

Em 1965, teve um novo sucesso com o show "Gemini V", ao lado de Leny Andrade e do grupo Bossa 3. O espetáculo gerou uma série de discos e deu largada à carreira internacional de Pery. O cantor fez uma temporada no México em 1966 e, no seguinte, mudou-se para os Estados Unidos e cantou com Sergio Mendes.

Voltou ao Brasil no início dos anos 1970. Nesta década, lançou trabalhos mais variados, com composições de nomes como Ivan Lins ("Agora"), Raul Seixas ("A Maçã"), Gonzaguinha ("Gás Neon") e João Bosco ("Amigos Novos e Antigos"). A partir dos anos 1980, voltou a se dedicar à bossa nova.

Em 2006, publicou o livro "Minhas Duas Estrelas: Uma Vida com Meus Pais". Escrito em parceria com sua mulher, Ana Duarte, o livro trata da relação conturbada de Dalva e Herivelto. No início de 2010, foi interpretado por Thiago Fragoso na minissérie "Dalva e Herivelto".

No total, lançou 12 álbuns dedicados à bossa nova. Seu último trabalho lançado foi o disco "Cores da minha bossa", de 2006. 

Entrevista com Geraldo Azevedo (2012)


A música de Geraldo Azevedo e as diversas vozes do Rio São Francisco

Por Márcio Proença
Fotos: Sérgio Ricardo Silveira

O cantor, compositor e violonista, Geraldo Azevedo está com o seu projeto intitulado “Salve São Francisco”, em que vem acompanhado de grandes nomes da nossa canção como: Djavan, Ivete Sangalo, Maria Bethânia, Dominguinhos, Moraes Moreira, Alceu Valença e diversos outros nomes, sendo as vozes do São Francisco, fazendo uma homenagem com músicas que têm como tema esse, que para ele e muitos, é o maior rio do Brasil.

O álbum conta com a luxuosa produção musical de Robertinho de Recife, renomado guitarrista que buscou dar toda uma sonoridade especial para obras primas nesse projeto como, “Barcarola de São Francisco”, música presente em vários discos de carreira de Geraldo Azevedo.

Idealizado por Geraldo, produzido pelo selo Geração e distribuído pela gravadora Biscoito Fino, além do CD, há também o registro do DVD, de mesmo nome, porém, contando com a captação de diversas imagens do rio homenageado, registrando os depoimentos de todos os artistas que participam do projeto.

Muito bem assessorado por sua filha Gabriela Azevedo, dono de um alto astral contagiante, irreverente e atencioso, sempre com violão em punho, Geraldo Azevedo me abriu as portas de sua casa, no Rio de Janeiro, para me ceder essa entrevista falando de suas influências musicais, de sua carreira artística e de seu projeto atual.

Geraldo, da sua família, de quem você herdou essa musicalidade? Márcio, na verdade toda a minha família tem musicalidade. Meu pai tocava violão e também era marceneiro, e minha mãe, cantadeira local. Todos os eventos religiosos que aconteciam ela era chamada para participar cantando. E ela tinha uma escola de alfabetização, e colocava os alunos para cantar. Na escola sempre faziam momentos culturais como teatro, música. Lembro-me que o meu primeiro palco foi a escola da minha mãe, pois ela colocava os alunos para participar dos eventos de fim de ano e me pedia para cantar ainda muito cedo. Assim, talvez por conta disso, em todas as escolas em que estudei, sempre cantava nas festas. Eu também tinha um tio que tocava violão por parte da minha mãe e quando ele nos visitava fazia uns saraus onde eu sempre tinha participação.

Você, nessa época, já pensava em ser profissional? Não era uma coisa que eu tinha como profissão. Porque nós não tínhamos essa noção, entendeu? A coisa foi me levando. Eu não pensava em ser um artista de renome, profissional.

E com o violão mais complexo, quando você teve o primeiro contato? Pois é, eu, até os meus treze, quatorze anos, morava na roça. Quando completei quinze comecei a estudar em Recife. E naquele tempo, quando surgiu a bossa nova, foi que o meu interesse pelo violão ficou muito mais amplo, devido ao fato de eu tentar entender aquelas harmonias, aqueles acordes dissonantes que eu achava bonito. Mas eu não tinha professor, e assim, comecei a trabalhar o meu violão sozinho.

As suas influências como cantor, quais são? Dois grandes nomes que me influenciaram foi João Gilberto e Roberto Carlos. Roberto, aliás, estava no início de carreira. E como muitos sabem, antes da jovem guarda, Roberto gravou bossa nova no primeiro disco dele. Era onde se começou a dar valor a uma voz íntima, onde não precisava ser de voz grande. Dizem que o Mário Reis foi o precursor dessa nova forma de canto, mas vim tomar conhecimento mesmo com João e Roberto. Também gostava e ainda gosto muito do saudoso Agostinho dos Santos. São essas pessoas me influenciaram. Mas eu não gostava da minha voz, porém, com o tempo, foi que eu vim me acostumando com ela.

Como se deu a sua vinda para o Rio de Janeiro? A cantora Eliana Pittman foi a responsável pela minha mudança para o Rio. Ela me conheceu cantando e tocando em Recife. Depois de um tempo, ela começou a fazer um trabalho solo e queria que no show tivesse uma atração especial e me chamou. Mas Eliana tem um repertório muito americanizado. Já eu, uma ligação muito forte com a cultura brasileira, mais regional, com os movimentos de cultura popular.

E o Geraldo Vandré, autor de “Pra não dizer que não falei das flores” e também parceiro seu em “Canção da despedida”? Depois do Festival da Canção, em que Geraldo Vandré foi o real vencedor por parte do público, perdendo o primeiro lugar para a música “Sabiá”, composta por Tom Jobim e Chico Buarque, em 1968, ele chamou um grupo em que eu participava para acompanhá-lo em diversos shows. Esse grupo se chamava “Quarteto Livre” e era formado por mim, Naná Vasconcellos, Franklin da Flauta e Nelson Ângelo. Mas ele teve aquele problema todo com o AI5 e já estavam à procura de Vandré por todo o país. Daí ele saiu para a clandestinidade e eu do grupo. Arrumei um emprego de desenhista. Até que apareceu o Alceu Valença, formou comigo uma dupla e definitivamente entrei para a música com uma consciência ainda maior.

E como foi a sua prisão por perseguição política? Na prisão eu refletia muito sobre o que estava acontecendo na minha vida. Minha primeira prisão durou quarenta dias. E na segunda, a mais violenta, em 1975, no governo de Ernesto Geisel, eu passei doze dias. Mas quando eu saí, saí com outro gás. Teve até uma ironia, que um ano depois dessa minha segunda prisão, eu gravei o meu primeiro disco solo, e o Geisel levou para a viagem dele à Alemanha, como exemplares da cultura brasileira, o meu disco e um de Villa-Lobos. Contudo eu consegui exorcizar toda uma mágoa, sob um processo de ódio. Na primeira vez em que fui torturado, eles – os torturadores – não usavam capuz. Então você via o torturador te dando choque elétrico, porrada etc. Havia uma impotência muito grande, pois você ficava algemado sem poder fazer nada. Até que um dia eu me toquei que aquele ódio estava me fazendo muito mal e decidi perdoar aquele cara, pois ele é quem tem problema. Eu estou saudável, vivo. Na segunda prisão eu nem quis saber quem estava me torturando. Entretanto, confesso que na verdade tenho um sentimento de pena de ver uma pessoa vivendo daquele jeito, fazendo as pessoas sofrerem.

E sobre a sua recente anistia? Eu fico muito feliz com tudo isso. Teve até crítica de jornal afirmando que nós, os anistiados, estávamos sendo oportunistas. Na verdade eu queria que o Estado reconhecesse a arbitrariedade que foi cometida contra mim, pois isso me deixou seqüelas. Eu tenho marcas de porrada, choque elétrico. Fora a censura em meus trabalhos musicais. A própria música “Canção da despedida”, de minha autoria com Geraldo Vandré, foi censurada por quase vinte anos. Por fim ela é cantada e ninguém imagina a história que tem por de trás daquela letra. Pensam que é uma canção de amor.

Qual o seu maior sucesso reconhecido pela grande público? É “Táxi Lunar”. Lembro-me que fui a muitos programas como Chacrinha, Hebe Camargo por causa dessa música. Mas “Dia branco” também é um dos meus hits. “Táxi Lunar” é uma obra que tem muitas regravações e não posso deixar de tocar em meus shows. Sempre que eu a toco há uma interação enorme por parte do público.

Já que estamos falando sobre “Táxi Lunar”, fale sobre o “Bicho de Sete Cabeças” que para mim é o álbum divisor de águas na sua carreira. Esse é o disco em que assumo ainda mais a postura de band leader e uma sonoridade muito além da bossa nova que hoje em dia é considerado world music. Esse álbum define em eu usar o eletrônico com maior eficiência, pois o meu primeiro disco foi todo acústico, com orquestra etc. Existem no Bicho de Sete Cabeças as participações de minha mãe, Dona Nenzinha do Jatobá, na música “Natureza Viva”, de Elba Ramalho em “Bicho de sete cabeças II” e efetivamente, Zé Ramalho e Robertinho de Recife estão presentes em todas as bases. Nos coros estão presentes: Amelinha, Terezinha de Jesus, Elba Ramalho. Falando sobre esse disco importante em minha carreira, me leva a falar de uma situação que não é reconhecida no cenário histórico. Sempre teve a Bossa Nova, O Tropicalismo, que, aliás, foi um movimento que se limitou a Caetano, Gil, Rita Lee e outros poucos. Mas teve a ascensão dos nordestinos, na década de oitenta, onde surgiram: Eu, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Alceu Valença, Fagner, Belchior, Amelinha, Cátia de França, Ednardo. E foi um movimento muito importante na música brasileira. Contudo, pelo simples fato de não ter havido um rótulo para definir esse movimento, ele não se sustenta como um momento especial na história da nossa canção. Entretanto, se você fizer uma análise com seriedade, vai ver que aquele momento foi importante sim, pois tem toda uma nova abertura, que você está reconhecendo no Bicho de Sete Cabeças, mas ali é apenas um presságio para todo um movimento que estava surgindo naquela época.

Márcio Proença e Geraldo Azevedo
Com exceção do disco “Cavalo de Pau”, do Alceu Valença, que era pela Polygram, a gravadora CBS teve uma grande participação nesse movimento, pois a maioria desses artistas como Fagner, Amelinha, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Ednardo, João do Vale, Cátia de França, Robertinho de Recife, Elba Ramalho, fazia parte do casting da CBS. Para mim, ela foi muito visionária. Você tem toda razão. Esse movimento foi centralizado na CBS. E o Fagner tem uma grande importância nesse momento. Ele foi o mais agregador de todos, pois teve um período em que ele foi o diretor artístico da CBS e contratou essas pessoas todas. Estou falando com muita seriedade, pois com relação ao Fagner tenho algumas restrições, mas não posso tirar o valor dele nesse momento.
   
Capa do DVD Salve São Francisco

E vamos falar agora sobre o seu mais novo projeto o CD e DVD “Salve São Francisco”. Fale o que você quiser. Esse é um projeto que já rondava minha cabeça por muitos anos, desde antes da transposição. O São Francisco é o rio da integração social. O maior rio do Brasil. Fala-se do rio Amazonas, mas o Amazonas é um rio continental, não é um rio brasileiro. Ele nasce na Cordilheira dos Andes, no Peru. Já o São Francisco tem sua nascente na Serra da Canastra, em Minas Geraes. E tem essa coisa do turismo.

Há uma falta de cuidado com esse rio, não? Há.

E para o disco, como foi a escolha do repertório? Escolhi as músicas que tinham como tema o rio São Francisco, entre elas: “Barcarola de São Francisco”, “Santo Rio”, “Águas daquele rio”, “Riacho do navio”, “O ciúme”, entre outras. Tem um coro de crianças maravilhoso na faixa “São Francisco são”, onde também tem a participação da cantora Márcia Porto. Foi lindo! Estivemos em Portugal, na Conferência de Gaia, onde passamos esse clipe e foi o maior sucesso. Queriam até comprar o vídeo. A direção musical é toda de Robertinho de Recife.

Como se deu a idéia do DVD? Foi idealizado contendo não só os depoimentos dos artistas que cantam comigo, mas também dos autores das músicas como Capinan, Galvão que falam sobre o rio São Francisco. Nele contém imagens do rio, dos artistas em estúdio cantando comigo. No encarte do cd estão escritos os depoimentos que todos os cantores fazem no DVD.

O arranjo da música “Barcarola do São Francisco”, que você interpreta com Djavan, está bem diferente de todos os registros anteriores, inclusive dos seus álbuns de carreira. Eu queria fazer algo mais ousado com relação a essa música, pois desejava dar uma outra cara para ela. Como você bem sabe, eu tenho regravada essa música em diversos álbuns meus de carreira, mas sempre com a mesma harmonia. A participação de Djavan faz toda uma diferença. 

Qual foi o critério para selecionar os artistas que participam do disco? O critério foi que teria de ser artistas que fossem naturais dos estados por onde passa o rio. De Minas Geraes, chamei Fernanda Takai, apesar dela não ter nascido em Minas, pois ela é natural do Acre, ela representa Minas Geraes nesse projeto, embora a primeira pessoa em que pensei fosse Milton Nascimento que, apesar de não ser mineiro, é do Rio de Janeiro. Para mim, Milton é a voz de Minas Geraes. Da Bahia tem Bethânia, Ivete Sangalo, Roberto Mendes, Márcia Porto, Moraes Moreira e Vavá Cunha. De Pernambuco, Eu, Alceu Valença, Dominguinhos e Geraldo Amaral. De Alagoas, Djavan. Infelizmente não temos ninguém de Sergipe, que é por onde o rio também passa.

Em relação ao seu vasto repertório, você sente saudade de alguma música composta por você? A minha filha Clarice tem me resgatado muitas músicas quando a gente faz saraus juntos. Tem música que é bom relembrar, mas outras precisamos ouvir novamente. O que acontece é que todo disco que você lança, nem todas as músicas daquele álbum você vai cantar. Aí você escolhe para o show aquela música que tem um apelo maior. Algumas dessas se tornam sucesso, outras nem tanto. E existem aquelas que você nunca canta. Por exemplo, “Bossa tropical” e “Plano romântico”, do álbum “Bossa Tropical”, eu nunca cantei em show.


Qual a música do seu repertório que representa você? Rapaz! “Chorando e cantando”, será que representa? “Dona da minha cabeça”... Eu tenho muita diversidade e maneira de cantar e tocar. Por exemplo, a música “Menina do Lido” é algo que só quem faz sou eu. Nunca vi ninguém tocar daquela forma. É algo muito particular. Acredito que durante esse tempo todo vim criando um estilo no qual influenciou uma geração de músicos que se espelha no meu trabalho e no meu jeito de tocar violão.

Deixe uma palavra para os leitores do Sombaratinho. Eu acredito que quem está começando tem que ter orgulho dessa cultura brasileira, da grandeza e riqueza que o Brasil tem, das diversidades musicais, das manifestações que o Brasil representa. Que a gente aprenda com todo esse teor de cada povo, de cada região, de cada lugar, porque o nosso país tem uma biodiversidade fantástica. Tem uma diversidade rítmica que nenhum outro tem. Então temos que nos orgulhar muito e acreditar no que estamos fazendo, no que se faz, no que se pode fazer a partir dessa riqueza cultural, social e política que podemos aprimorar cada vez mais. E é só levar fé e amor pro que der e vier. 

Site Oficial de Geraldo Azevedo: http://www.geraldoazevedo.com.br

Nota do entrevistador

Simpático e muito atencioso, Geraldo Azevedo me permitiu gravar, com exclusividade para o Sombaratinho, ele mesmo tocando e cantando alguma de suas músicas, dando-nos a honra de participar em um "Coro de desafinados" formado por: Márcio Proença, Sergio Ricardo de Oliveira, Leandro Machado, na música "Dona da minha cabeça" (Geraldo Azevedo e Fausto Nilo).

Abaixo, ouça "Dona da minha cabeça", ao vivo na casa de Geraldo Azevedo

Sarah Vaughan - O Som Brasileiro de Sarah Vaughan (1978)













Por Márcio Proença

Lançado em 1978, O Som Brasileiro de Sarah Vaughan, é um album especial, gravado no estúdio da RCA, no Rio de Janeiro. Foi o primeiro de três álbuns da cantora dedicados à musica brasileira.

Sobre a música "If you went away", versão em inglês de Ray Gilbert, para a clássica "Preciso aprender a ser só", de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, é o guitarrista Hélio Delmiro, músico participante dessa gravação, em um solo formidável, quem nos revela:

Inusitado encontro!

Fui chamado pelo Gilberto (arregimentador da RCA), para mais uma gravação de rotina...”Então, Delmiro? 21:00 aqui na RCA, tudo bem?” Gravava muito, e poderia calhar de ter outro compromisso agendado. Estava livre e dei um OK pr'o Gilberto. Chegando no estúdio, fui logo à minha estante para saber o que me esperava...algumas partes todas assinadas por José Roberto Bertrami. Iniciaram-se as passadas, e quando esta canção ficou pronta, vem a Sarah com a parte (partitura) na mão, e de prima, pôs-se a cantar..."Gelei" de emoção, quando de repente me vem uma orientação: "onde está assinalado "solo", é pr'a vc"...Iniciei aquele solo tímido e economicamente, apesar de ter saído razoavelmente bem. Sarah ouvia atenta (...).Vez em quando me olhava por cima daqueles oclinhos. rssssssss...

Ao final sentenciou: “Diz para ele tocar mais...” Assim foi feito. Outra escutada e vem a derradeira ordem: “VAMOS FAZER OUTRA, AGORA,DIZ PARA ELE,QUE TUDO O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI,É POR CAUSA DELE!” A partir daí, deu no que deu...

Final de tudo, Durval Ferreira, na época, diretor artístico, me chama no canto e diz: "A ÚLTIMA VEZ QUE ELA SE PERMITIU EM DIVIDIR UM SOLO COM UM MÚSICO,FOI COM CANNOBALL ADERLY. VC ESTÁ COM A BOLA CHEIA, GARÔTO! GRAÇAS À DEUS!”

Texto de Hélio Delmiro em meu Facebook, no dia 21 de janeiro de 2012, sobre a postagem do vídeo com a música "If you went away".

Faixas

01. Bridges - Travessia (Milton Nascimento - Fernando Brant - Gene Lees)
02. If You Went Away - Preciso Aprender a Ser Só (Paulo Valle - Paulo S. Valle - Ray Gilbert)
03. Triste (Antonio Carlos Jobim)
04. The Day It Rained - Chuva (Durval Ferreira - Pedro Camargo - Ray Gilbert)
05. The Little Tear - Razão de Viver (Eumir Deodato - Paulo S. Valle - Ray Gilbert)
06. Courage - Coragem ( Milton Nascimento - Paul Williams)
07. Roses And Roses - Das Rosas (Dorival Caymmi - Ray Gilbert)
08. Someone To Light Up My Life - Se Todos Fossem Iguais a Você (Antonio Carlos Jobim - Vinicius de Moraes - Gene Lees)
09. I Live To Love You - Morrer de Amor (Oscar Castro Neves - Luverci Fiorini - Ray Gilbert)

Ficha Técnica:

Antonio Carlos Jobim - piano e arranjos em Se Todos Fossem Iguais a Você
Dorival Caymmi - voz em Das Rosas
Milton Nascimento - violao e voz em Travessia e Coragem
Milton Nascimento (voz e violão)
Zé Roberto Bertrami (orgão, piano e arranjos)
Novelli, Sergio Barrozo, Claudio Bertrami (baixo)
Nelson Angelo (guitarra)
Robertinho Silva, Wilson das Neves(bateria)
Danilo Caymmi, Paulo Jobim (flauta)
Chico Batera, Ariovaldo, Luna, Marçal (percussão)
Helio Delmiro (guitarra)
Edson Frederico (arranjos)
Antonio Carlos Jobim (piano e arranjos)
Mauricio Einhorn (harmônica)

Abaixo o vídeo com a versão da música "If you went away" de Ray Gilbert para a clássica "Preciso aprender a ser só", de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle

Solo de guitarrra: Hélio Delmiro

Rock Brasília - O Rock é o Caminho (1987)













Por  Márcio Proença

Segue aqui uma coletânea de bandas de Brasília, quando o 'rock nacional' ressurgia vestido de 'new wave'. O álbum traz várias bandas em um registro ao vivo, gravado no Circo Show, em dezembro de 1986.

O disco " "Rock Brasília" teve a direção artística de Liminha e foi produzido por Pena Schimidt, através do selo WEA, que buscava um novo 'cast', apostando na nova onda da música pop mundial. Brasília era naquele momento um celeiro ideal, fervilhando de bandas, todas seguindo as mesmas trilhas da Legião Urbana, Capital Inicial e Paralamas do Sucesso (que por acaso não foi formada em Brasília).

Das dez bandas que participam da coletânea, nenhuma vingou, pelo menos o suficiente para um primeiro disco solo.

Faixas

01) A carta - W3
02) Máscaras - Pânico
03) História - Marciano sodomita
04) E o tempo - Habeas corpus
05) Pássaros negros - 5 generais
06) Volta pra mim – Beta Pictoris
07) Tudo mal - Elite Sofisticada
08) Velhas caras - Manto
09) Razões - Os culpados
10) Seja normal - Artigo 153

Diversos Artistas - As Vozes do Jingle (1981)




Esse é raríssimo! Uma montagem com fotos dos cantores Zé Luiz Mazziotti, Marcio Lott , Luna Messina, Lucinha Lins, Fabíola, Flávio Faria e Regininha interpretando a música "Pra Sempre Cantarei". Vale a pena conferir!

LP: As vozes do jingle
Selo: Sonora
Ano: 1981

Música: "Pra Sempre Cantarei"

Cantores:

Luna Messina
Marcio Lott
Zé Luiz Mazziotti
Flavio Faria
Regininha
Fabyola Santos
Lúcia Lins

Produção: Júlio Hungria

Músicos:

Piano: Reinaldo Arias
Guitarra Base: Leonardo bruno e Claudio Stevenson
Guitarra solo: Victor Biglione
Baixo: Alexandre malheiros
Bateria: Picolé

Arranjo vocal: Ivan Lins

Fotos: Paulo Peres