terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Tudo de Novo - Biografia oficial do Roupa Nova



Roupa Nova, uma biografia
Por Márcio Proença

Toda boa história tem de ser contada e passada a diante. E algumas são contadas no livro “Tudo de novo – Dos bailes para a história da música brasileira”, (editora Best Seller) escrito pela jornalista Vanessa Oliveira, sobre a trajetória do conjunto carioca Roupa nova, após uma pesquisa de três anos, entrevistando ícones da MPB, que tiveram em seus trabalhos a presença do grupo, indo de Milton Nascimento a Rita Lee, passando por Fagner e letristas como Fernando Brant e Ronaldo Bastos, que não se furtou em afirmar “... um livro delicioso, que se equilibra entre pesquisa apurada das fontes e a emoção que só uma fã de carteirinha possui”.

Entre as mais de quinhentas páginas, o leitor toma conhecimento - em capítulos - da biografia de cada um dos seis integrantes do Roupa, além de  conhecer um pouco sobre os festivais de música e do cenário dos bailes pelo subúrbio carioca nas décadas de 60 e 70, período em que, através de outros grupos, os futuros intérpretes de “Sapato Velho” se conheceram formando Os Famks, grupo antecessor de Roupa Nova,. Esse nome sugerido por Mariozinho Rocha, produtor musical da gravadora EMI-Odeon, no início dos anos 80, por causa de uma música homônima de Milton Nascimento e Fernando Brant.

Marcada pela emoção de depoimentos relevantes, a obra aborda não só os 33 anos de atividade musical do grupo, mas também fatos importantes para a urbanização cidade do Rio de Janeiro, como a criação do túnel Santa Bárbara, em 1963, ligando a Zona Norte à Zona Sul da Cidade Maravilhosa, além da efervescência do cenário musical no mundo como o surgimento dos Beatles, dos Rolling Stones e da Jovem Guarda no Brasil.

Nesse seu “Tudo de Novo”, Vanessa Oliveira convida o leitor a uma viagem musical, a um resgate dos bastidores da Rádio Cidade, a um passeio pelos bailes do Rio de Janeiro, a um embalo da Jovem Guarda. Convida-nos a ouvirmos o Clube da Esquina de Milton e Brant, a revisitarmos a MPB, a entrarmos no universo das gravadoras e na história de um dos mais bem conceituados grupos da canção popular brasileira.

Mas nem tudo são flores nessa trajetória. Sem esconder ressentimentos por parte dos músicos, Paulinho (vocal e percussão); Serginho (bateria e vocal); Nando (contrabaixo e vocal); Kiko (guitarra e vocal); Ricardo Feghali (Teclados e vocal) e Cleberson Horsth (teclados e vocal), o livro traz à tona mágoas do conjunto em relação não só a alguns colegas de profissão, mas em sua maioria, com a dita crítica “especializada”. Muitas vezes, formada por jornalistas sem o mínimo de conhecimento teórico musical, equivocadamente, tem o Roupa Nova como um grupo de harmonia pobre e que atende a um público de gosto duvidoso.

Verdade seja dita, sempre houve um preconceito por parte dos pseudocríticos musicais - que a cada dia estão mais presentes nas editorias dos meios de comunicação - quando o assunto é aquele grupo que um dia gravou um disco de capa amarela, no ano de 1984, e emplaca - até hoje - sucessos populares como “Whisky a Go Go” e “Chuva de prata”. Injustiça!

Devemos lembrar de que esse mesmo grupo - admirado por Milton Nascimento, que também assina o texto na introdução do livro - já presenteou seu público com um álbum de nome “Ouro de Minas”, em 2001, interpretando com arranjos primorosos, compositores mineiros da dita linha MPB, com participação de Zélia Duncan, Luciana Mello, Ivete Sangalo e Sandra de Sá. Um disco tido pelo grupo como um dos mais conceituais de sua discografia.

Além dessas, o livro traz outras histórias mais recentes, como a gravação do CD e do DVD “Roupa Nova em Londres”, nos estúdios Abbey Road, que rendeu ao Roupa o Grammy Latino de Melhor Álbum de Pop Contemporâneo Brasileiro de 2009. São contados também os detalhes sobre a gravação dos Cds RoupAcústico 1 e 2, as constantes mudanças de empresários, os problemas de saúde enfrentados pelos integrantes, o surgimento do selo Roupa Nova Music, a triste relação com a MTV em 2005 e até o megaesquema montado para que eles participassem do especial de Roberto Carlos em 2007.  

Junto à biografia, o Roupa Nova fecha o ano de 2013 em grande estilo, lançando sua caixa “Roupa Nova Music”, que traz uma retrospectiva de 33 anos de carreira, com cinco DVDs lançados desde 2004: "RoupAcústico"; "RoupAcústico 2"; "Roupa Nova em Londres"; "Roupa Nova 30 anos" e "Cruzeiro Roupa Nova". Há também um EP com seis faixas inéditas, entre elas, “Segredos do Coração”, versão de Ricardo Feghali para “Happy Man”, clássico da banda Chicago, de Peter Cetera.

Impossível não se emocionar com o epílogo!

Boa leitura.





sexta-feira, 16 de março de 2012

Entrevista com Os Cariocas (2011)


Neil Teixeira , Eloi Vicente, Severino Filho e Fábio Luna - Os Cariocas

O ineditismo do grupo Os Cariocas  com clássicos da MPB

Por Márcio Proença

São mais de sessenta anos de estrada musical, mais de sessenta discos, nove formações, diversos prêmios e uma contribuição de suma importância para a formação cultural da música popular brasileira. Esse é o grupo vocal e instrumental “Os Cariocas”, idealizado e formado ainda na década de quarenta pelo saudoso violonista Ismael Neto, irmão do pianista e arranjador Severino Filho, único remanescente da formação clássica ainda em atividade no quarteto.

Atualmente com o novo álbum “Nossa Alma Canta” (Guanabara Records/2010), o grupo Os Cariocas vem renovando seu repertório, sempre tendo como ineditismo arranjos originais e interpretações primorosas das mãos de Severino Filho ou de Eloi Vicente. Dessa vez, os fãs podem se deleitar com clássicos de grandes compositores da nossa canção na voz do quarteto, como é o caso de “Futuros amantes”, de Chico Buarque ou ainda “Você”, de Roberto Menescal e Ronaldo Boscoli.

Além dos arranjos e interpretações inéditas para o grupo, o álbum conta com participações especiais de músicos como João Donato em “Rio que corre”; “Samba do Carioca” com o ex-integrante Badeco; Eumir Deodato em “Baiãozinho”; Marcos Valle em “Jet Samba”; a cantora Hortênsia Silva, única mulher que fez parte do grupo, de 1956 a 1959, em “Você” dividindo os vocais com Eloi Vicente. Há também a participação de Milton Nascimento fazendo um vocalize em “Clube da esquina 2”.

Em um delicioso início de noite, no Clube Monte Líbano, na Lagoa, no Rio de Janeiro, fui recebido pelo grupo que me cedeu essa entrevista momentos antes de começar o show que se estendeu noite adentro apresentando um repertório coerente, com bossa e descontração.

“Nossa Alma Canta” é o 18º disco da carreira do grupo Os cariocas?
  • Neil Teixeira – baixista – É, pela longevidade do conjunto nós temos que refazer alguns números, porque contando com os discos de 78 rotações, Lps e cds, é o produto de número 64.
Após quantos anos vocês voltaram a gravar?
  • Fábio Luna – baterista – O grupo parou de 1967 a 1988. E o retorno foi marcado com o disco Minha namorada, álbum que foi o vencedor do Prêmio da Música, primeiro prêmio do grupo. E esse ano (2011) também ganhamos. Na verdade já foi o quarto prêmio.
  • Severino Filho - pianista - Tivemos um hiato de vinte anos e nesse período o grupo não gravou, não atuou. E para o retorno foi preparado um álbum. Esse foi o disco "Minha namorada", que ganhou o Prêmio da Música, do ano de 1988, pela Som Livre. 
E por que não um disco com músicas inéditas?
  • Severino Filho - pianista - Esse repertório foi discutido com a gravadora Guanabara Records. Chegamos à conclusão de que um disco com inéditas seria um trabalho difícil de entrar no mercado, porque o grupo já não vem tendo uma exposição muito grande na mídia. E decidimos que gravaríamos obras que nunca foram gravadas pelo grupo. Pedimos aos compositores João Donato e Marcos Valle para que compusessem uma música, cada um, para que a gente gravasse. Então, são 14 músicas no disco e duas inéditas.
  • Fábio Luna - baterista - Como nós somos conhecidos como um grupo de intérpretes, creio que o nosso ineditismo sejam as interpretações e não das composições.
  • Neil Teixeira - baixista - Existem artistas que particularmente eu admiro pela qualidade, pelo carisma. Por exemplo, o Simoninha, Seu Jorge, Diogo Nogueira, Roberta Sá são vozes que me soam agradáveis. Mas eu mesmo não sei cantar e não conheço nenhuma música desses artistas. Talvez seja pela idade e porque hoje há uma diversidade muito intensa. A cada dia há um artista se lançando como independente. Há um tiroteio de informações por todas as áreas. 
Há algum disco na história dos Cariocas em que o repertório é todo inédito?
  • Eloi Vicente – violonista – Praticamente até a década de sessenta o repertório do grupo era todo inédito. Por exemplo, o disco de 62 “A bossa dos Cariocas”, tem muitas músicas inéditas.
Por quantas formações os Cariocas já passaram?
  • Neil Teixeira – baixista – Essa é a 9ª formação
Embora a primeira formação do grupo seja ainda nos anos 40, ou seja, antes do surgimento da bossa-nova, gênero pelo qual Os cariocas ficaram realmente conhecidos, em algum momento o grupo já pensou em cantar algum outro gênero que não a bossa nova?
  • Severino Filho – pianista – Um quarteto com 65 anos de carreira corre o risco de afirmar algumas coisas. O grupo ficou muito ligado à bossa nova. Então, isso é ótimo. Mas na bossa nova nunca tivemos um álbum entre mais vendidos ou uma música entre as mais cantadas. Contudo, antes desse movimento musical, o grupo teve. Então, nos deixa numa sinuca, não é?
  • Neil Teixeira – baixista – Eu até tenho recorte de jornal dizendo que o primeiro disco do grupo foi o mais vendido, em segundo o Frank Sinatra e em terceiro o Luiz Gonzaga. Mas depois na bossa nova, o grupo nunca mais teve uma venda como aquela, entendeu? Todavia, o movimento foi marcante na história do conjunto. E era também um momento importante de qualidade de gravação. Aquelas gravações deixadas para trás não passaram no tempo, já com a bossa nova, o que se gravou hoje ainda é ouvido. Mas o que foi feito antes, dificilmente atravessou ou superou a qualidade da gravação.
Nesse último álbum, há duas faixas que agregam a voz de Severino Filho a de dois ex-integrantes do grupo, o violonista Badeco e a cantora Hortência Silva. Como se deu a idéia dessas participações tão especiais? 
  • Neil Teixeira - baixista - Olha, eu vou te dizer. Isso começou mais ou menos em 2008, em uma reunião na casa do Severino. Era uma festa, aniversário dele e a Hortência, que é irmã do Severino, apareceu por lá. E como era o ano de 50 anos da bossa-nova, iríamos nos apresentar no Teatro Rival e o Severino tinha um arranjo para a Miúcha. Eu mesmo solicitei que a Hortência cantasse. E me chamou a atenção da beleza da voz dela. Era uma emoção estar cantando com uma ex-integrante dos Cariocas. E naquele tempo já estávamos pensando no disco. Numa oportunidade que tivemos em discutir sobre o disco decidimos chamar a Hortência para cantar, porque a música que a gente faria do Menescal e Bôscoli, "Você" é um diálogo entre homem e mulher. Até brincamos com o Eloi que ele faria a parte da mulher e nós a parte do homem. Mas a Hortência topou e veio. Ela já não entrava em um estúdio há mais de 48 anos, entretanto, logo no primeiro ensaio, o Severino, que tem muito mais experiência que a gente, falou que ia dar certo. E não deu outra, ficou lindo!
  • Severino Filho - piano - O Badeco é o maior vocalista que essa país já teve. O que ele faz com a voz é fantástico. As frases mais arranjadas que escrevi foi o Badeco quem fez o solo. 
Como foi a escolha do repertório desse último trabalho? 
  • Neil Teixeira - baixista - Foi um bate bola com o João Samuel que foi o nosso produtor, com o dono da gravadora que é nosso amigo, e nós do conjunto. Em geral o produtor chegava com a ideia e a gente aceitava ou não. No caso de duas músicas "Estrada do Sol" que é de autoria de Dolores Duran com Tom Jobim e "Coisas de mulher" (Chico e Baiano) que a Dolores apenas cantava. A gente estava apresentando um show em homenagem aos cinquenta anos de falecimento dela e decidimos colocar no disco porque estávamos curtindo demais essas duas músicas. Inclusive o  grupo Titulares do Ritmo foi quem gravou essa música pela primeira vez. 
Por todo o disco há participações luxuosíssimas como as dos pianistas Eumir Deodato, João Donato, Marcos Valle e do cantor Milton Nascimento. Alguma dessas participações já era desejada por muito tempo em algum disco do grupo?
  • Neil Teixeira - baixista - Já. Em 2001 o Milton nos convidou para o disco dele chamado "Crooner" e agente ficou com a carta na manga, não é? E dizíamos que iria ter a hora em que ele também participaria de um disco da gente. Aí chegou a hora e o convidamos, mas dissemos que ele não iria cantar, só fazer o vocalize. Eu não sou chorão, as nas duas vezes em que chorei como músico, foi participando de um show com o Milton Nascimento no Canecão e na gravação desse disco.
  • Severino Filho - pianista - Eumir Deodato, foi uma loucura da gravadora. Nós queríamos gravar uma música do Eumir "Baiãozinho", aí o pessoal da gravadora falou que iria trazer o Deodato para gravar com a gente. O cara mora lá nos Estados Unidos. Conseguiram tudo, hospedagem etc. e o cara gravou. 
  • Eloi Vicente - violonista - E o João Donato já é de casa (risos). Ele ia na casa do Severino e brincava com a gente, tocava, fazia quinta voz. E o Marcos Valle dispensa comentários. Além de ser um grande compositor e instrumentista, é uma pessoa maravilhosa. 
As músicas desse álbum renovam o repertório de vocês?
  • Eloi Vicente - violonista - Gravar música inédita é sempre bom, mas tem coisas que também nunca foram gravadas pelo grupo, como por exemplo, "Futuros amantes" do Chico Buarque. Gosto muito do arranjo dessa música. 
A música “Rio que corre” já era conhecida por vocês há muito tempo? 
  • Neil Teixeira - Já. Nós a consideramos inédita porque não tinha sido lançada em um disco de carreira de outro artista. Era uma música engavetada. 
  • Fábio Luna - Ela foi lançada em um disco privado, sob os auspícios da Prefeitura do Rio de Janeiro. Foi um disco com uma tiragem de mil exemplares, apenas para distribuição.
  • Eloi Vicente - Era o álbum "Rio de Janeiro, gosto de você"
  • Severino Filho - Mas ficou por ali e não foi lançada comercialmente. Ela não foi feita no período desse disco, mas sim há uns dez anos pelo João Donato. Ficou engavetada e agora chegou a vez dela. 
De todo o repertório desse disco, qual a música que mais deu trabalho para arranjar e gravar?
  • Severino Filho - Olha, eu vou citar as duas mais difíceis, que são: "Rapaz de bem" porque eu quis conceber um arranjo com dez sopros. Hoje em dia, como isso é feito? Chama-se quatro e dobra-se. Contudo, eu quis fazer à moda antiga. E eu não quis dez nomes bons. Eu quis dez lendas. 
  • Neil Teixeira - E eu perguntava: "Poxa, Severino, como vamos juntar num mesmo dia:  Léo Gandelman, Carlos Malta, Mauro Senise, Aurino (que toca com Roberto Carlos) ... ?
  • Severino Filho - Não. Mas eu queria, fazia questão. 
  • Neil Teixeira - E a outra foi a música "Delírio carioca", do Guinga. Essa tem uma história muito interessante e engraçada. Nessa, a nossa dificuldade foi no arranjo. O Severino tem uns arranjos que dos quais sou suspeito para falar, pois sou um grande admirador e ele é o maior arranjador vocal que já passou por essas terras... Isso é unanimidade. Na ocasião desse disco, da Prefeitura, eu fui com o Quartera ao consultório do Guinga, no Grajaú. Ele deixava o cliente de boca aberta e vinha na sala com o violão em punho, mostrar uma música pra gente, dizendo que o paciente estava anestesiado e que podia esperar (risos). Até que ele nos mostrou o "Delírio carioca". Essa é uma música pós-moderna. A letra do Aldir é futurista. A melodia é belíssima. Seria atual, se a arte estivesse na frente do comercial. Mas para um disco da Prefeitura, as músicas teriam que ser de exaltação ao Rio, no entanto, a poesia do Aldir Blanc é muito ácida e não entrou. Então, no disco Delírio Carioca, do Guinga, ela foi cantada pelo Djavan. Mas o Severino chegou com um arranjo muito bom e difícil. E tivemos que ensaiar muito mesmo.  
Nos shows vocês apresentam boa parte do repertório desse álbum? 
  • Fabio Luna - Pois é, "Delírio Carioca" a gente nunca cantou ao vivo. Talvez pela dificuldade do arranjo.
Todos os arranjos do foram escritos em maior parte por quem?
  • Neil Teixeira - Pelo Severino. Mas ele tem entregue ao Eloi essa incumbência. Ele (Eloi) faz à moda do Severino, mas com a cara dele. O "Coisas de mulher" é um arranjo do Eloi.
Atualmente vivemos um momento em que os discos praticamente estão sumindo até mesmo das casas dos apreciadores da boa música. Para vocês isso se deve ao fato de que a música ficou mais acessível ou as pessoas agora consomem esse produto de outra forma, fazendo downloads e ouvindo em seus aparelhos como computador, celular, mp4? 
  • Fábio Luna - baterista - Na verdade eu acho que nunca se consumiu tanta música como hoje. Você entra nos ônibus e vê pessoas com fones de ouvido curtindo música, nas redes sociais como Youtube, por exemplo. O tempo todo você pode pesquisar, mas a questão do disco em si acaba, de ouvir o álbum inteiro, está acontecendo menos, a não ser quando é um artista muito conhecido e que você gosta. Por exemplo, o Chico Buarque nesse último disco dele, quando está perto do lançamento eu já havia comprado porque ele havia feito, pela internet, uma pré-venda. Mas consome-se nos dias de hoje a música em si. Antes a pessoa comprava o disco e lia a ficha técnica. Era um prazer. Mas há atualmente a mudança do formato. Antigamente era o LP, mudávamos de lado. Depois veio o cd e agora é o download onde as pessoas ouvem muito mais a música destacada do disco. 
Qual a relação do grupo com as redes sociais Youtube, Facebook...? 
  • Eloi Vicente - violonista - Fizemos uma página no Facebook que está indo muito bem, para divulgar shows e ter mais contato com o público. Mas acredito que isso ainda vai crescer muito. Nós podemos disponibilizar mais material que foi feito. Mas estamos fazendo, colocando isso no ar.  
A todos vocês, meu muito obrigado por dar aos leitores do Sombaratinho, esse privilégio em poder saber um pouco mais sobre o grupo Os Cariocas. 

  • Neil Teixeira - Em nome do grupo Os Cariocas, eu agradeço, Márcio Proença, por essa oportunidade de poder levar aos nossos fãs e aos leitores do Sombaratinho um pouco mais da nossa história. Um abraço e até um próximo encontro.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Entrevista com Dori Caymmi (2012)

Maestro Dori Caymmi


Por Márcio Proença
Fotos de Sérgio Ricardo da Silveira

Polêmico. Esse é o adjetivo dado, por muitos, a respeito do cantor, violonista, arranjador e maestro Dori Caymmi, tido por músicos e compositores, arranjadores e cantores renomados ou não, um dos maiores ícones da música do Brasil. No entanto, quem tem o privilégio de entrevistá-lo, vê cair por terra tal adjetivo, todavia, um artista que bate de frente com um progresso assassino que vai de encontro à morte do sentimento nacionalista e da perpetuação dos nossos valores culturais, muitas vezes, velados por uma indústria cultural hipócrita e capitalista.

Quando esteve de férias na Cidade Maravilhosa até meados de dezembro do ano passado - época em que  me cedeu essa entrevista, pois atualmente reside em Los Angeles, EUA, por mais de vinte anos - Dori Caymmi lançou no segundo semestre de 2011, o seu mais recente álbum intitulado “Poesia Musicada” (Acari Records/2011) ao lado do grande poeta Paulo César Pinheiro, comemorando quarenta e dois anos de parceria e pondo em cena um Brasil que para ele não existe mais, que não dá voz à poesia, à manutenção da memória, e sim, à ganância de um imediatismo midiático e supérfulo.

“Poesia Musicada” em alguns momentos trata de temas relacionados ao mar, ao amor com presença constante de instrumentos acústicos e remete o ouvinte mais atento à obra do mestre Dorival Caymmi. Bons exemplos estão em “Canto praieiro”, “Rede”, “Dona Iemanjá” e “Velho do mar” (meu pai), essa última, letra dada a Dori Caymmi, pela musicista Luciana Rabello, esposa de Paulo César Pinheiro, fazendo referência a Dorival Caymmi, saudoso poeta e pai de Dori. Contudo, o álbum traz a melodia, o violão e uma voz repleta de personalidade, quase uma marca registrada de quem sabe a importância que há por de trás do sobrenome Caymmi. 

Maestro, o que você quer falar sobre o seu novo álbum "Poesia Musicada" ao lado do poeta Paulo César Pinheiro? Que o importante é que estamos fazendo 42 anos de parceria. A nossa primeira composição foi "Evangelho" em 1969. Esse álbum "Poesia musicada" é um trabalho muito de coração. Eu estava muito parado em compor, devido ao desaparecimento dos meus pais num período de onze dias cada um. Mas um dia, fazendo uma limpeza em minhas gavetas, me deparei com uma letra do Paulo César de nome "Rede" e notei que daria uma música legal. Em vinte  minutos a música estava pronta. E mandei para o Paulo, através desse sistema de  e-mail, rede social, que eu não sei usar. Daí ele adorou e foi mandando letra e resolvi fazer o  disco "Poesia Musicada" porque eu estava sem incentivo e começou a chegar letras dentro do espírito. Está um pouco praieiro, tem a cara do meu papai em certas coisas da praia, Iemanjá ... E no meio disso, quando meu pai faleceu, na minha chegada ao Rio para o velório na Câmara dos Vereadores, a minha comadre, Luciana Rabello, excelente musicista e esposa do Paulo César Pinheiro,  me entregou um poema chamado "Velho do mar" e esse poema é sobre a morte dele, a ideia dele esperar Iemanjá na beira da praia. E eu levei um tempo para musicar, mas com esse incentivo todo de letra, acabei fazendo essa música também. O disco, Proença, ficou assim, uma coisa bem brasileira, com treze composições inéditas . E a gente trabalha no instinto. Eu não tenho apego nem comercial, nem material a nada. Então, a música é o que eu sinto, o que eu penso. O disco é mais ou menos isso. Ele também é o que eu falo há cinquenta anos da música do Brasil, respeitando Ari Barroso, Noel Rosa, Pixinguinha, Braguinha, Ataulfo Alves, Lamartine, enfim, os mestres. É com eles que a gente aprende. Aí eles transmitiram até ao Tom Jobim. Porque antes do Tom ir para os Estados Unidos, ele não era essa bossa nova toda. Ele nunca foi bossa nova, e sim, um grande compositor. E a partir desse momento entra o João Gilberto com uma informação de violão que começou a criar nossa geração. Mas aí, principalmente, Milton Nascimento, Edu Lobo, Eu, Chico Buarque, nos libertamos um pouco da Bossa nova e entramos na música do Brasil. Aliás, o disco do João Gilberto, "Chega de saudade" mostra muito isso, não é? "Aos pés da santa cruz, você se ajoelhou. Em nome de Jesus um grande amor você jurou". Isso é moderno, e tem uma forma bonita!

É certo afirmar que esse álbum "Poesia Musicada" proporciona ao ouvinte uma viagem ao Brasil. Que Brasil é esse, Dori? É o Brasil que não existe mais, não é? É o Brasil que tinha praia, jangada com pescadores. O progresso não é bom em todos os sentidos. Ele suja. Haja visto na Baía de Campos o desastre ecológico da Chevron. O progresso suja e tira a poesia, vai destruindo a nacionalidade, vai tirando o seu sentimento nacionalista - no bom sentindo, evidentemente, não é político, nem nada -  e polui, mistura com as coisas erradas. Outro dia tinha um menino com dez anos aqui em casa, e eu perguntei à mãe dele qual o estilo de música que ela gosta. Daí, ela me disse que gosta de pagode. Eu perguntei ao menino que me respondeu que gosta de funk e que não gosta de samba. Ora, Proença, e a pouco tempo queriam fazer do funk uma cultura carioca! Isso é um crime! O progresso traz essas estupidezes. Então, o meu disco é um Brasil que não existe mais. É um Brasil que era lindo. Na época em que você podia ir ao nordeste e ver  o pescador, o artesanal, a poesia ... Essa coisa foi tirada pela indústria pesada, pela construção de edifícios na beira do mar. Então, a minha música tem um pouco dessa dor que o Paulo César reflete também. Eu nasci no Rio de Janeiro, em 1943, ainda sendo essa cidade a capital da república, então, eu cantava o  hino nacional, o hino da bandeira. Na verdade o hino nacional eu cantava pouco. Cantava o hino da bandeira praticamente todos os dias. E aí o prefeito, se não me engano, era o Antônio Carlos Vidal, reunia na porta do Palácio Guanabara, todas as escolas públicas para cantar e participar das festividades...Hoje os caras saem no feriadão! Então, esse meu disco traz um pouco essa tristeza. Esse é o Brasil do qual estou te falando, Proença, mas que começou a ser invadido como todos os outros países. Eu não digo que é errado, eu não digo que é certo, mas ele reflete diretamente no meu trabalho. E eu lembro de um Rio de Janeiro que não tem mais, de uma Bahia que não tem mais. 

Pois é, concordo com você. Para mim o progresso nos atrapalha numa questão de nacionalidade muito grande até mesmo na religião. Hoje temos o gospel no Brasil. Ah! mas as pessoas aqui no Brasil cantam gospel como Whitney Houston, igual à mãe da Whitney que canta na igreja americana. Ridículo! Então, começa a entrar uma outra corrente de música do exterior. O programa do Raul Gil mesmo não tem um calouro daquele que representa o cantor brasileiro. Toda aquela raça ali vem com uma informação de fora. Infelizmente temos o Tim Maia, o Ed Motta ... todos eles com uma informação muito dirigida para o exterior. Márcio Proença, você que é um cara antenado, inteligente, conhecedor da música brasileira, ora! se você sabe que uma criança de dez anos tem o funk como uma música legal e você ouve o cara mencionar - não sei se foi o Sérgio Cabral - que o funk é cultura carioca, isso para você, um amante da música brasileira, não é ofender a raiz da música do Brasil nos seus primórdios, porra? Funk não tem nada de brasileiro. Eu não estou falando de baile funk. E você vê que hoje, na periferia, essa coisa de tentar tirar o pobre da miséria criando coisas de maneira errada, não dá certo porque você tira a personalidade do Brasil e começa a colocar o funk, o rap, o reggae. Na periferia está cheio de grupos assim. E esses movimentos começam nas comunidades, nos bairros da zona norte do Rio de Janeiro. Na década de setenta tínhamos a banda Black Rio que já vinha trilhando isso aí, na borda, não é? Vários músicos importantes como: Cristóvão Bastos; o saudoso guitarrista Oberdan - ótimo músico, diga-se de passagem - ;o Lincoln Olivetti, ótimo arranjador, mas que já veio com uma informação exterior; O Robson Jorge, que era o "Urubu". Todas essas pessoas estavam trazendo para dentro da música popular brasileira, os arranjos da Motown. Então, essas invasões todas diversificam e acabam liquidando essa coisa da nacionalidade.

Maestro Dori Caymmi

Certa vez eu li em uma entrevista, Dori, que na qual você afirma: "mesmo morando em Los Angeles, lá eles me deixam fazer música brasileira". Como é isso? Proença, eles deixavam também. Agora não deixam assim com essa facilidade. Quando a gente começou era uma novidade. Agora entrou muita informação, e como qualquer profissão, você começa a enveredar por caminhos e coisas, e tal... então, muito brasileiro com informação diferente, sem uma cultura musical, muito adaptado... por exemplo: um compositor como Gilberto Gil. Quando ele esteve nos Estados Unidos, ele estava extremamente brasileiro. No Brasil ele começou a adaptar Bob Marley e não sei o quê. Meu pai adorava o "Aquele abraço" que é muito mais inteligente do que qualquer Bob Marley que eu já vi na vida em termos de mistura com o Brasil. Aí você vê que, quando se faz de coração, a repercussão é muito grande. Então, as pessoas começaram a queimar um pouco a música do Brasil e o americano adaptou. Você vê a Bebel Gilberto cantando. Tem a Teresa Souza também...Tem uma porção de gente fazendo música e vai e faz um jazz e essa coisa toda, mas de preferência tocando o que é seu em termos de composição porque tem o direito autoral. Inclusive o jazz sujou muito por causa desse fusion. Então vem o cara e faz um teminha  super idiótico e fácil. Aí o que acontece é que tem tanta informação que o americano acabou adaptando, o que se chamou de música brasileira, ao gosto deles. Então, hoje, as pessoas até estranham, pois a bossa nova ficou de posse do Stan Getz , do Charlie Bird, do Herbie Mann por muito tempo. E eu cheguei nos Estados Unidos, na década de oitenta, com uma outra informação, e aí chocou um pouco, mas a intensidade do meu trabalho com a coisa do Brasil deixou eles grilados, pois eles não conheciam esse Brasil direito. Esse trabalho foi feito primeiro pelo Milton Nascimento, pelo Djavan, Edu Lobo... Isso eu estou falando das décadas de 70 e 80. E a partir daí começou a misturar muito. O americano toca um samba muito ruim e diz que é bossa nova. E as pessoas já compram isso...

Lá você é marcado por uma música só? Sim. É "Like a lover" que aqui no Brasil é conhecida como "O cantador". Mas isso aconteceu aqui no Brasil com o Milton Nascimento, em "Travessia". E ele é muito melhor que "Travessia".  

Sendo arranjador e compositor, você trabalhou na trilha sonora do seriado infantil Sítio do Picapau amarelo, na década de setenta. Muitos hoje, na faixa de idade dos quarenta anos, ouviram aquele disco. Como surgiu o convite para que você arranjasse aquele belo álbum? Olha, essa história é o seguinte: eu tinha feito a trilha sonora da novela global "Gabriela" e de algumas novelas nacionais, pois eu não aceito fazer essas novelas do cotidiano, como trilheiro. Eu não gosto. É muito para todos os lados... Mas no caso de "Gabriela", e de minisséries você tem uma diretriz melhor. Reconheço que na novela é muito interessante você ter uma música. Recentemente estivemos presentes, eu e Nana, na trilha de "Insensato  Coração" em que eu cantei "Só louco" do meu  pai; e ela "Sem poupar coração", de minha autoria com o Paulo César Pinheiro. Isso é muito importante até pra você ficar razoavelmente na mídia. Mas eu entrei para a Globo fazendo uma trilha pra cá, outra pra lá. E quem me convidou primeiro para "Gabriela" foi o Guto Graça Mello. Especialmente foi a primeira que eu fiz e que tem uma importância muito grande. Para essa trilha fiz "O porto" e "Alegre menina", que é uma letra de Jorge Amado, e que foi gravada pelo Djavan, cantor que o João Melo, produtor na época, nos indicou. Mas em relação à trilha do Sítio do Picapau amarelo, foi o seguinte. Eu estourei um tendão de aquiles jogando bola e fiquei muito tempo parado. Havia um ser maravilhoso chamado Edvaldo Pacote que estava muito próximo dos meus pais e ele soube que eu estava operado e sem grana, pois eu havia investido um dinheiro na minha operação. E aí ele falou com o Boni, que sabendo da minha situação, assinou minha carteira e fiquei um bom tempo me recuperando e tendo uma grana certa todo mês até que chegou a época da gravação da trilha sonora do Sítio do Picapau Amarelo. Então, Márcio, durante esse período todo de seis, sete meses, o Boni segurou todos esses meus problemas de saúde. Eu agradeço a esse cara porque ele salvou minha vida financeiramente. Muito obrigado, Boni. Bem, mas aí eu falei com o Gilberto Gil para que ele fizesse uma abertura e comecei a chamar o Sérgio Ricardo e toda aquela turma. Um negócio bem nacionalista. Mas depois comecei a questionar as mudanças no Monteiro Lobato. Aí, enquanto era Geraldo Casé, Ghiaroni, Wilson Rocha, estava bem brasileiro, mas foi com Benedito Ruy Barbosa começou a ser ele o Monteiro Lobato. E aquele troço começou a me incomodar um pouco e comecei saindo.

É nesse período em que você compõe com o Paulo César a música "Desenredo"? Sim, é nesse período. Eu tenho uma ligação muito forte com a música de Minas Gerais. Eu lia muito Guimarães Rosa nessa época. E lendo Guimarães veio a Minas Gerais do meu tempo de menino, onde eu vi o primeiro milharal, o primeiro galinheiro de verdade e a goiaba no pé, nessa cidade onde minha mãe nasceu chamada Pequeri. Depois estudei em Cataguazes. Quer dizer, tudo isso voltou à lembrança e compus "Eh, Minas. Eh, Minas, é hora de partir eu vou... vou me embora pra bem longe". Fiz esse refrão, mandei a música para o Paulinho e ele fez uma letra lindíssima.

O cantor Márcio Lott lançou há alguns anos um disco chamado "Emcantos Gerais", onde ele interpreta canções de compositores mineiros ou de compositores que têm uma influência mineira. E "Desenredo" está lá. Você tem mesmo essa influência mineira em sua música? Sim, eu tenho 33% do sangue mineiro, não é? O meu sobrenome Tostes é mineiro. É uma família grande de Minas Gerais. E eu tenho esse apego à natureza. Até mesmo a minha literatura, exceto Jorge Amado e Adonias Filho, vai muito para Minas Gerais. Mas eu digo que não é nenhuma relação com a música mineira, pois a música mineira tem muito congado, um lance mais tradicional vindo da África. Porém, a música mineira mesmo é "Como pode um peixe vivo viver fora da água fria?". É algo mais folclórico. Essa música mineira que se chama é uma música cheia de informação. O Milton Nascimento já ouvia Miles Davis, Coltrane, Tom Jobim. Essa corrente não é música mineira, e sim, compositores mineiros que faziam música brasileira. Contudo, eu só descordo com o compositor mineiro. É que nem música baiana. Música baiana é africana.

Não é esse axé que você está falando. Não, não! Isso... Tá louco! Isso aí, não... Isso aí é um Bob Marley de porre. Pior ainda. Esse troço é um negócio bobo. A massa é quem dita. Eu não quero ser agressivo, nem nada, mas eu não vejo nada. É uma manifestação popular. Eu ouço música com o ouvido, não com o corpo, nem com abadá. Você segue isso para se divertir. Como diz o outro: "Pra pegar mulé". Eu não saio pra pegar mulé e não gosto da manifestação carnavalesca. O carnaval pra mim tem um sentido muito grande quando vejo algo mais tradicional do Brasil. Aí, sim, eu gosto muito.

E a sua relação com o violão, como se deu, além da influência do seu pai? Márcio, quando eu era menino - a minha mãe principalmente tomava essas iniciativas - comecei a estudar piano.Ela percebeu que eu escutava música com outros ouvidos, ficava sozinho prestando muita atenção e tal. Fui estudar com uma professora chamada Lúcia Branco que foi professora de vários mestres como: Tom Jobim, Arthur Moreira Lima, na esperança de que eu aprendesse piano, mas ela notou que eu não sou pianista. Eu já tinha ouvido Debussy ..., mas torcia o nariz para as aulas teóricas. Aí, fui estudar com uma outra professora, que era assistente da Lúcia Branco, D. Nize Obino.  E ela foi professora do grande mestre Nelson Freire. Quando o João Gilberto apareceu, eu notei que havia uma mudança muito grave nos rumos da música no Brasil. E no meio disso tudo ainda me aparece o Baden Powell que é a mistura do choro com o samba, afro samba ... Mas eu achava que violão era coisa do meu pai. Imediatamente eu comecei a tocar violão, cantar em casa com minha mãe, Nana...Aos 17 anos já estava tocando profissionalmente, mas sempre procurando um caminho diferente do meu pai e da bossa nova. Em relação à teoria, cifragem, foi o Roberto Menescal quem me mostrou, me deu essa colher de chá.

Pois é, para alguns músicos, com quem eu vinha conversando, como o violonista Julio César Caliman, do interior de São Paulo, músico que fez uma belíssima tese de mestrado a seu respeito, juntando também com o que eu já toco e conheço do seu vasto repertório, noto que você tem uma ligação muito forte com uma harmonia sofisticadíssima, mas que em suas composições nem sempre isso acontece, pois há até mesmo a presença constante de tríades e que se casam perfeitamente com a melodia. Por ser um autodidata, isso te desprende? Você concorda com isso, Dori? Proença, eu não sei. Pra mim tudo é um reflexo natural. Ás vezes tem uma música muito difícil que aparece na minha vida e de repente aparece também uma coisa tão brasileira, tão simples! O "Desenredo" mesmo, no início, é como se fossem os sinos de Ouro Preto. Ele tem uma coisa muito sofisticada e muito do que vem ao seu ouvido sempre, pois minha mãe cantava coisas formidáveis e tenho essas influências que refletem na minha criação intuitivamente. Mas às vezes pintam coisas fáceis como "Alegre menina", por exemplo. E em termos de arranjos vêm as flautas de madeira que vem da banda de pífano, que é uma informação brasileira.

Que, aliás, é um instrumento que tem uma presença bem marcante no seu trabalho, não é? Sim.O Danilo Caymmi toca muita flauta de madeira. E ultimamente tem sido o Teco Cardoso, grande músico do interior de São Paulo e que também está presente nesse meu disco de agora.

Sim, mas voltando ao tema anterior... Ah! sim, pois é, aí pintam uns temas mais complexos na minha cabeça, mas também mais brasileiros. Por exemplo, esse meu novo álbum é um disco extremamente brasileiro por influências que eu tive dos considerados grandes mestres da música do Brasil, que tem no choro, que tem o Villa-Lobos, enfim... Quando gravei a música "Ponta de areia", no meu álbum "Contemporâneos", eu tinha ido a Piquiri cinquenta anos depois e não tinha mais o trenzinho fumaça, não tinha mais o carro de boi. Pra mim essas poesias todas vão acabando. Por isso que a minha música reflete um  Brasil que não tem mais. Muitos acham que estou atrasado uns 50 anos, e estou mesmo.

Não. Não vejo você um cara atrasado, e sim, um cara antenadíssimo. E que, pô!, dá o maior valor ao que realmente é nosso. Não só dá valor, como também faz algo pela música brasileira. É como diz a letra do Paulo César Pinheiro "A vida pára para quem não cria". Vocês não pararam. Estão criando mais do que nunca! Isso tem que ser defendido. É, mas eu sou o único que defende a pau e pedra, porque o politicamente correto é a coisa que mais atrapalha. Você fala num botequim quando está bebendo, mas não em uma entrevista. Ninguém quer atacar para não perder essa postura idiótica do politicamente correto. "Ah! Se você falar mal do cara pega mal". Aí, de vez em quando eu tenho que dar uma pedrada porque o cara desvirtua demais essa coisa brasileira. Eu tenho que defender o Brasil, pois se não o defendermos, estamos mal pra burro. Já estamos no caminho errado há muito tempo, porque essa globalização está matando. O computador está em uma velocidade que ninguém segura. Você convoca uma reunião amanhã na Praça Mauá com duzentas mil pessoas só pela Internet. Tem gente que me chama de conservador. Tem gente que me chama de xiita, ortodoxo porque eu não vou mudar a minha opinião a respeito dessa coisa do Brasil. Não posso mudar. Sendo filho de quem eu sou, tendo sentado no bar com Ary Barroso, com Mário Lago, aluno do Baden, do João Gilberto... Aluno de orelha, porque a minha mãe dizia para eu não aporrinhar as pessoas. E eu não queria que todos pensassem que eu tivesse facilidades por ser filho do Dorival Caymmi. Então, eu ficava quietinho, prestando atenção para aprender. E o Tom foi o primeiro quem me colocou debaixo da asa.O segundo foi o Luizinho Eça do Tamba Trio.

E na época em que estava sendo gravado o álbum Tropicália, você se desentendeu com o Caetano Veloso, por quê? Porque ele queria gravar a música "Dora" do meu pai de forma errada. Olha, eu não fiquei puto da vida. Márcio, você moderniza a música de uma pessoa sem descaracterizar. Caetano estava muito imbuído no Sargent Peppers, dos Beatles. Quando o Gil gravou "Marina" também ... Eu adoro eles dois. São músicos fabulosos e amigos. Mas, na verdade, essas modificações impensadas, descaracterizando a obra do autor que eles são fãs, me deixam muito chateado. Eles procuram caminhos... As pessoas só têm essa vida pra viver. Então, o Gil vem e faz um "Punk da periferia", mas também uma abertura maravilhosa como o "Sítio do picapau amarelo". Eu não me guio pelo que o público acha que eu devo me guiar, entende? Eu não vou nessa onda. E nem tenho a importância que esses cara têm. Do ponto de vista midiático, estou plenamente conformado desde os tempos em que eu comecei a fazer música. Hoje é muito difícil eu convencer a mídia de que sou um compositor, pois muitos acreditam que sou um arranjador. E eu me conformo plenamente, pois foi isso que me deram pra viver. Mas se agora futuramente forem ouvir a minha música, eu já tenho um bando de jovens que gostam. Há alguns dias eu fui na Escola Portátil de Música, na Urca e fiquei emocionado em ver que tem tanta gente que gosta de mim. O Paulo César começou a me mostrar algumas coisas que eu não sabia que existiam. Mas a verdade é que eu não queria ferir o caminho do meu pai e nem disputar com ele coisa nenhuma, tipo Gonzaguinha e Gonzagão. Eu não queria me meter nesse ramo artístico. Eu não me sinto bem. Só me sinto bem quando eu faço por necessidade de fazer. Aí eu componho, arranjo... Então, eu não sou muito conhecido como compositor, a não ser por essas novas gerações que começaram a me ouvir.

E qual foi a primeira grande cantora brasileira que te gravou? Foi Elis Regina. Nana é minha irmã, e aí é suspeito, não é? É uma grande cantora e me gravou muito! As cantoras do Quarteto em Cy. E recentemente a Bethânia gravou uma música minha também. Mas ultimamente a minha salvação é a Nana Caymmi e o Renato Brás. Aliás, o Renato eu chamo sempre. Ele é super talentoso e costuma dizer que é filho do Milton Nascimento e sobrinho meu (risos).

E como é a história da música "Marina", do seu pai? A história que me contaram é que eu falava que "estou de mal, estou de mal" o tempo inteiro. E daí partiu a ideia do "de mal com você". Mas o que consta é que foi feita em minha homenagem. Não deve ter sido feita para mim, evidentemente, mas é essa a história.

E com o seu pai, você compôs? Não compus nada com meu pai. O Danilo foi quem fez alguma coisai, mas uma ou duas. Eu nunca tive a ousadia de fazer música com meu pai.

Por quê? Porque o meu respeito é uma coisa muito antiga e o meu pai só foi entender isso já mais velho. O Danilo tinha essa abertura toda porque ele era o garotão, o filho que ele afagava. E a minha mãe afagava a mim. E a Nana sobrou (risos).

Você começou trabalhando em música com teatro, no Grupo dos Sete, não foi? Foi. Essa foi a grande chance que tive na minha vida. A minha primeira chance, por ser filho de Dorival Caymmi, foi mesmo no Teatro dos Sete porque não tinha grana pra rolar e eu ganhava um cachê simbólico. Tinha eu, Nana, um pessoal de atabaque e um coro pra fazer: "Vida de nego é difícil, é difícil  como o quê", do repertório do meu pai e do Jorge Amado, uma música feita para o "Terras do sem fim". Ali foi uma oportunidade que eu tive e também encontrei o teatro mais bonito que tinha no Brasil. Você tinha o Fernando Torres e a Fernanda Montenegro, o Sérgio Britto como diretor e ator, Ítalo Rossi, Zilka Salaberry, Mário Lago ... Só tinha fera, gente importante!

Mas, fale também sobre o "Opinião"? Foi a minha primeira grande experiência no teatro. Nara, Zé Keti e João do Vale. Esse é o primeiro que eu faço. Esse era ali na Rua Siqueira Campos, aqui em Copacabana. A turma principal era Ferreira Gullar, Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa. As feras do teatro brasileiro dessa época. E aí aproveitou-se a música "Opinião" do Zé Keti, que segundo consta, era uma música feita pro cara não tirar ele da favela, que aliás, virou um hino da esquerda. Depois veio o "Carcará" do João do Vale. Com a Nara é forte, com a Bethânia é muito mais, não é? Dai, veio o Edu Lobo e me pediu para fazer o "Arena Conta Zumbi" que havia sido apresentado em São Paulo com a Dina Sfat e o Lima Duarte ...

Márcio Proença e o Maestro Dori Caymmi

Isso mesmo. Eu li na tese de mestrado do Julio Caliman, do seu envolvimento no "Arena Conta Zumbi" que tem um cunho ideológico muito forte Sim, essa peça é o musical mais bem escrito com composição de Edu Lobo e pelo Gianfrancesco Guarnieri. Aliás, nessa peça é que tem a música "Upa, Neguinho".  Mas no elenco do Rio de Janeiro tínhamos como atrizes: Vera Gertel, Isabel Ribeiro e Dina Sfat. Como atores: Paulo José, Milton Gonçalves e Francisco Milani. Depois disso eu fui fazer "O berço do herói", de Dias Gomes, que foi censurada! Aí eu fiz o "Gota D'água", "Calabar" ...

Indo para os festivais, Dori, "Saveiros" no I Festival Internacional da Canção, em 1966.  Poxa! Olha, é a minha fase com o Nelson Motta. E o Nelsinho tinha uma visão diferente da minha pra esse lance de festival. No caso do "Saveiros", ele já era do Jornal do Brasil. E jornalista é um pouco abusado, não é? (risos). E ele começou a se assanhar um pouco, estava escrevendo em jornal ... Ele queria que a Elis cantasse "Saveiros", mas eu bati o martelo e disse que seria a Nana. Mas se fossemos ver, talvez, ele tivesse razão, pois a Elis já era uma cantora estabelecida e a Nana tinha chegado grávida da Venezuela, não era conhecida do grande público. Mas eu errei na tonalidade. Foi um tom muito alto pra ela. Ela teve que esganiçar no Maracanãzinho. A orquestra era o Gaya, com um arranjo muito bonito. Acontece que nós levamos muita porrada e a Nana também. Inclusive sofreu pressões da Elis, da Maysa ... A Nana passou mal, teve que tomar injeção ... Eu me lembro de, ao ter ganho a parte nacional do festival, sair com o troféu em punho, tipo querendo dar na cara das pessoas para ver se alguém me falasse alguma coisa, para eu tacar. Eu estava enlouquecido! Enfim, ganhamos esse troço. Em segundo lugar ficou o Bonfá, com a Maysa cantando "Dia das Rosas" (Bonfá e Maria Helena Toledo). Mas a melodia de "Saveiros" é muito torta. O povo não iria cantar aquilo, não entrava no ouvido das pessoas, como "Sabiá" do Tom e Chico Buarque, também não entrou.

Mas "Sabiá" é do III Festival Internacional da Canção, em 1968. Sim, mas, porra, o Tom Jobim dá de dez a zero neles todos, pô! O povo não entende. Não adianta! A Cynara e a Cybele cantaram "Sabiá" sob vaias ...

Então, voltando a "Saveiros"... Rapaz, essa música me traumatizou mais ainda, devido a uma falcatrua na votação ... Como era o I Festival Internacional da Canção, todos os meus votos tinham sido transferidos para um outro compositor. Marmelada de quem estava na presidência do festival e na presidência do juri. Marmelada interna ... Augusto Marzagão e Cia, mas graças ao Roberto Menescal e ao Marcos Vasconcellos que procuraram saber e saíram perguntando: "Pô, você votou em quem?" -  "Ah! Votei em Saveiros". Eram quatorze votos que tiraram de mim para uma outra pessoa que não sei quem foi e nem quis saber. Entretanto, tivemos uma outra votação, colocaram "Saveiros" e a música ganhou. Tomamos uma vaia razoável. Aí fomos para a parte internacional, ou seja, na segunda parte do festival, onde um cara disse o seguinte: "O festival é no Brasil. E sendo no Brasil, o Brasil não pode ganhar. Vai ser o segundo lugar". Decide entre a Alemanha e a França. Lembro-me que havia um russo que estava competindo e veio com um intérprete falar comigo que adoraram a minha música. Inclusive até o Henri Mancini estava presente. Gente importante! Só que eu não pude ganhar o festival porque eles queriam que quem ganhasse era uma francesa com uma valsa calhorda. O cara parecia um gigolô francês cantando aquela merda bem barata, bem fácil do público entender. Proença, meu amigo, eu fiquei muito zangado. Na final, realizada entre os dias 27 e 30 de outubro, “Saveiros” ficou em segundo lugar, perdendo para “Frang den Wind” (“Pergunte ao Vento”), de Helmut Zacharias e Carl. J. Schaubler.

E "O cantador"? Isso foi no ano seguinte, 1967. O Nelsinho havia entregue a música para a Elis e ao maestro Gaya. Eles distorceram a música da pior maneira. A minha música era uma toada lenta e no festival estava uma merda. E o Nelson dizendo que a Elis ia ganhar, que a música é quente e tal. Mas, Márcio, eles mataram a música na raiz. Anos depois eu gravei no meu disco como eu queria.

Você orquestrou algumas faixas do disco "Domingo", do Caetano e Gal, não foi? Eu orquestrei algumas faixas. O que acontece é que eu tinha ligação com a Philips como produtor. Era um quadro de produtores que existia, daí me chamaram. No disco eu fiz violão do "Coração Vagabundo", "Candeias", mas não fiz a produção. É bonito, mas é pobre, como arranjador (risos). Mas acredito que melhorei como arranjador foi no "Viola enluarada" para o Marcos Valle e Milton Nascimento, cantando juntos. Assim mesmo, a mixagem não é boa.

Mas quando você começou a se firmar melhor como arranjador? Foi a partir dos discos da Nana Caymmi. Mas também fui trabalhar com o Tom Jobim no cinema, em temas que ele musicou ... "Crônica da casa assassinada", "O tempo do mar" ... Eu aprendi no estúdio, pois não tive uma escola de orquestração. Aprendi com o Eumir Deodato, com esses mestres.

Dori, o que é que... O que é que a baiana tem? (risos) 

O que é que sobra e o que é que falta hoje na música brasileira? Faltam os grandes brasileiros. Hoje temos poucos grandes brasileiros. Tem o Sérgio Santos, de Minas Gerais; tem o Claudio Nucci; tem o Zé Renato; tem esses caras que ainda olham para o Brasil sem querer essa pedrada toda de querer que o Funk seja cultura carioca. A memória do povo e bem pequenininha. Agora eu estava conversando com o Maurício Machiline que eu gostaria que em 2013, no Prêmio da Música Brasileira, fizessem uma homenagem ao centenário do meu pai. Eu sei que tem o centenário do Vinícius de Moraes, Mário Lago, Nelson Cavaquinho, do Dorival Caymmi... Tem uma porção de gente. Então, pega esses centenários todos e faz uma homenagem ao centenário dos compositores dessa geração aí. Mas ele me disse que o Vinícius já foi prêmio, o Caymmi já foi prêmio. Não importa. O centenário é o centenário, não é? Eles agora homenagearam o Noel Rosa que é o grande cara do Rio de Janeiro. É a cara do Rio de Janeiro. Não esse Rio de Janeiro do Funk, mas o Rio de Janeiro do samba, dessa coisa bonita e espirituosa do carioca, que se perdeu. Um dos culpados é o Juscelino Kubitschek, o outro é o Brizola. Esses caras entregaram o Rio ao diabo que o carregue. Eles maltratam a cidade até não poder mais. Eu sou do Andaraí, Nana é do Grajaú e o Danilo é do Leblon. O Brizola inventou proibir polícia de entrar em favela e deixou virar essa zorra que virou. E o Juscelino levou a capital sem pensar em proteger o Rio de Janeiro. Nós já viramos Estado da Guanabara, mas continua sendo a cidade cultural desse país.

Pois é, sou brasiliense e vivi naquela terra até aos meus 27 anos. Eu não me oponho à criação da sua terra, mas tirando a música instrumental, artisticamente a cabeça das pessoas que saíram de Brasília é rock puro. Você pega o Renato Russo, o Herbert Vianna, a Cássia Eller... nenhum tem a formação de música brasileira. Brasília, nesse ponto, é tão desumana musicalmente que ela só deu gente que não é brasileira.

É, mas os tempos mudaram. Hoje tem muita gente boa fazendo música de qualidade por lá. Olha,  confesso a você que não tenho o mínimo de vergonha em admitir que fui criado em Brasília, em uma cidade satélite como Taguatinga Norte, que tem a "M" norte, um sub-bairro, quase de frente para a Ceilândia. O que eu vejo é que sou uma resultante dessa turma da qual você está falando. Comprei, sim, discos da Legião Urbana, da Cássia Eller e muitos outros na década de oitenta, quando houve a efervescência do hoje chamado Rock Brasil. Meus pais falavam que era uma bobagem, entretanto nunca me coibiram. Mas você, Dori, pela sua formação que já vinha de dentro de casa, teve essa oportunidade de ter o contato com os grandes nomes, desde sempre. Não que lá em casa, eu não tivesse, mas meus pais sempre me traziam os discos do Waldir Azevedo, do Edu Lobo, do Milton Nascimento ... Contudo, o que eu queria ouvir naquele momento era o Renato Russo... Eu acho importante você dar essa liberdade para o seu filho, pois é uma outra geração. A cultura se movimenta. Ela tem que ser mutável, mas com os pais atentos e dispostos a  mostrar o outro lado da moeda, entende?  Entendo, Márcio, vocês, filhos, têm liberdade de escutar o que vocês querem ouvir, mas desde que não nos façam escutar juntos (risos). Certa vez o João Suplicy me perguntou se eu não ouvi Beatles. E eu disse a ele que só por acidente, pô! Não é a minha formação. Eu não posso estar escutando na minha cabeça. A primeira vez que me mostraram, tenho a impressão que foi a Olivia Hime e o Francis Hime, o disco "Sargent Peppers" com "Lucy in the sky with diamonds". Mas tem um orquestrador de nome George Martin, nesse disco, na música "She's leaving home".  Tem uma frase de cellos e a música é muito folclórica. E eu sempre amei o folclore inglês. Não é um she loves you, (yeh, yeh, yeh), que tenho vontade de matar a humanidade por causa disso.

Hoje tudo tem que ser pop para se adaptar? É isso aí. O lance é que hoje está tudo pop. Vou dizer que certa vez eu assisti ao Djavan, em que ele levou "Faltando um pedaço", "Meu bem querer", pro lado mais pop para se adaptar ao público mais jovem. Mas em relação a mim, se o jovem quiser me ouvir vai ter que me ouvir do jeito que eu sou. Não vou me adaptar ao que eles querem. Isso não existe. Pra mim não faz o menor sentido você mudar. Então, esse meu xiitismo todo vem do fato de que, você tendo essa quantidade de informação musical aqui nesse país, tendo todos os ritmos que vem da nossa Mãe-África, não há necessidade disso, ou seja a negação do antigo. Olha, quando eu me casei com a Helena, o meu pai se aproximou mais de mim porque antes ele implicava um pouco, pois a minha geração apareceu muito forte com Caetano, Gil, Chico Buarque, Milton Nascimento, Edu Lobo, apavorou a geração dele, porque a tendência da indústria é eliminar o que passou e botar o novo na praça. Por isso que eu digo as mesmas coisas há cinquenta anos. Você não pode inventar o aparelho que cura sem lembrar que a penicilina salvou a vida da humanidade em certa época, entendeu? Etão, esses valores têm que estar equilibrados. Você não pode falar do choro moderno se você não mencionar o Pixinguinha, Patápio Silva ... Tem umas coisas que precisam ser relembradas o tempo inteiro.

Para finalizar, eu gostaria que você falasse sobre os seus pais e seus irmãos Marcinho, olha, eu tenho um apego muito grande aos meus irmãos. Quando a gente começou a tocar um pianinho, um violãozinho,  o Danilo na flauta ... depois a gente gravou "Caymmi visita Tom", ali a gente já tocava junto em casa. Ele era aluno do Leni Siqueira. Então, Danilo sempre foi muito companheiro até mesmo musical. Depois que eu saí de casa ele teve outros amigos e foi construir a vida dele. Eu tocava e escrevia coisas para ele ler. E a Nana vem anteriormente, pois a gente já tocava e cantava junto. Ela tinha um programa de nome "Canção de Nana", uma vez por semana na TV Tupi. E a Nana cantava às seis da tarde, das seis às seis e meia. Eu sempre tive uma convivência com ela de irmão e irmã bem unidos, muito juntos no gosto musical . Tanto que fui produtor dela por muito tempo. São ligações sentimentais e musicais muito grandes com os dois. Então, quando você ouve "Alegre menina", aquelas flautinhas quem toca é o Danilo. A maioria das minhas músicas gravadas é pela Nana. Então, Márcio, eu tenho uma ligação muito explosiva e amorosa com meus irmãos. Dos meus pais eu sinto uma falta pavorosa! Eu tenho o costume de passar pelo corredor desse apartamento e pedir benção a eles, porque eu tenho uma ligação fantástica com todos eles. Eu sinto uma orfandade. Me senti muito mal com essa perda, pois eu pescava com minha mãe, eu me identificava demais com a música do meu pai, fiquei amigo dele nos últimos quinze anos da vida dele, de conversar, morar juntos quando eu vinha dos Estados Unidos. Eu me sinto muito criança, tanto que eu coloquei na capa do meu novo disco, a foto que ele tirou. E aquele violão, assinado por várias personalidades, foi roubado. Foi roubado e raspado. Foi achado em Caxias, meses depois.

Que crime! Ele tinha paixão por aquele violão. Enfim, foi uma família intensa, doida pra cacete! A palavra saudade, para mim, não vai deixar de existir nunca.

E o que você prefere, Rio ou Los Angeles? O Rio antigo. Se eu for medir pelo coração. O Rio que eu vivi até aos meus 40 anos. Hoje não é nem Los Angeles, mas sim, minha casa porque eu tenho intimidade com meu jardim. Estamos lá há mais de vinte anos.

É uma chácara? Não. É uma xícara (risos).

Obrigado, Maestro Dori Caymmi. Um abraço, querido Márcio Proença. Eu é que agradeço.

Site oficial de Dori Caymmi - http://www.doricaymmi.com
Site da gravadora Acari Records - http://www.acari.com.br

Agradecimento a Guto Burgos

Abaixo, ouça a música "Violeiro" de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, faixa integrante do álbum "Poesia Musicada", de Dori Caymmi.

terça-feira, 6 de março de 2012

Mulheres de Hollanda - Show Imagina Ela (2012)

Grupo Vocal Mulheres de Hollanda

Mulheres de Hollanda na arte de reinventar Chico Buarque II

Por Márcio Proença

Atualmente no cenário musical brasileiro há cantores e grupos de grande talento. Diante do que a mídia oferece, é um alívio assistir a essa renovação de perto e ver pontos positivos. Fica claro - e isso há tempos já é sabido por todos - que a música brasileira não é o que se mostra pelos programas dominicais ou pelos jabás radiofônicos.

Navegando pelos sites de entretenimento, nota-se a variedade de grupos e gêneros musicais, um deles chama-se Mulheres de Hollanda, grupo vocal composto pelas cantoras Karla Boechat, Malu von Krüger, Marcela Mangabeira, Eliza Lacerda e Ana Cuba. Juntas trazem à tona e reinventam com competência o universo da obra de Chico Buarque, um dos maiores compositores brasileiros.

Os únicos CD e DVD do grupo, "Mulheres de Hollanda ao vivo" (Independente, 2008), gravados ao vivo no Teatro Municipal de Niterói no ano de 2007, mas lançados no ano de 2008, surpreendem por tudo: pelo repertório, pelo arranjo vocal, pela harmonia, pela ousadia e pelo trabalho em si.

Posto à prova que Chico é um compositor de obra atual e admirada pela nova geração de cantores e músicos brasileiros, as belas interpretações de Eliza Lacerda em “Mil Perdões” e Malu von Krüger em “Samba e Amor” não deixam a desejar para as gravações originais de Chico Buarque.

Outro momento de rara beleza fica por conta de “Todo o Sentimento”, composto por Chico Buarque e Cristóvão Bastos, pianista que também está nesse trabalho, além da participação de Cláudio Nucci e Zé Renato, ex-integrantes do grupo vocal carioca Boca Livre, que se uniram, depois de anos, especialmente para essa ocasião.

E por falar em participações especiais, há também a indispensável presença das veteranas do Quarteto em Cy, precursoras no repertório Buarqueano, em “Com açúcar e com afeto”, fazendo assim o encontro de diferentes gerações a serviço da obra do autor de “Paratodos”.

Atualmente o grupo Mulheres de Hollanda, tem se apresentado com o novo show “Imagina Ela”, contando com arranjos originais de André Protásio (diretor musical do grupo) para obras-primas como “Tatuagem” e “Sob medida”. O mesmo também assina o arranjo de “Roda Viva”, que o quinteto gravou para o programa Som Brasil – Especial Chico Buarque, da Rede Globo em 2010. Vale lembrar que os dois instrumentistas de alto nível que acompanham o grupo em palco são Flávio Mendes (violão) e Fabiano Salek (percussão).

“Imagina Ela” é composto por um repertório repleto de sentimento, tanto é que em “Sem fantasia”, o dueto de Marcela Mangabeira ao lado de Karla Boechat e Ana Cuba em “Trocando em miúdos”, tem levado muitos da platéia à emoção. É imprescindível dar destaque para “Flor da Idade”, “A Rosa”, “A banda” e “Ela e sua janela”.

Não resta dúvida, Mulheres de Hollanda é um trabalho e momento especial na MPB de hoje, ficando provado que a música brasileira não está parada, mas renova-se com novos talentos em interpretações originais, criativas diferentemente do que a visão míope da mídia como um todo tem apresentado. É realmente um novo momento da nossa MPB.

Serviço:

Show "Imagina Ela" com Mulheres de Hollanda (para mais informações, clique na imagem)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Entrevista com Alice Caymmi (2012)




Alice Caymmi no Bar Semente 

Por Márcio Proença

A cantora e compositora Alice Caymmi, filha do cantor e compositor Danilo Caymmi e neta do saudoso ícone da MPB, Dorival Caymmi, se apresenta por todo esse mês de março/12, sempre às quintas-feiras, no Bar Semente, Lapa, RJ.

A artista apresenta músicas de sua autoria que perpassam entre notas de MPB, rock, jazz, bossa e samba, mostrando sua moderna vertente e sua voz de timbre raro, cantando suas letras românticas e densas acompanhada por Flávio Mendes (violão) e Fabiano Salek (percussão).

Por telefone,  a cantora falou, em uma breve entrevista, um pouco sobre o que será sua estreia e também suas influencias musicais.

Alice, primeiramente muito obrigado por me ceder essa entrevista. Bem, o que o público pode esperar desse seu show no Bar Semente, na Lapa, aqui no RJ, a partir dessa quinta-feira? Pode esperar um repertório de músicas autorais e inéditas. Há também versões de músicas que me influenciaram.

Quem são os músicos que estarão presentes no palco com você? Fabiano Salek (percussão) e Flavio Mendes (violão e arranjos).

Vai haver participações especiais? Provavelmente. Mas, ainda, não tem nada certo.

E o seu disco de estréia, qual a previsão de lançamento? Ainda não há uma data de lançamento, mas creio que seja por esse ano.

Qual foi o processo de escolha do repertório para esse show? Márcio, meu trabalho é basicamente autoral e juntei com algumas influencias do que eu tenho ouvido.

E quais são essas influencias, além da música dos seus ilustres e talentosos familiares? Tropicália e Bjork

Quer deixar um recado para os leitores do Sombaratinho? Meu recado é que vão ao show para conhecerem o meu som e também para que eu os conheça. Bjs a todos e até lá.

Obrigado, Alice Caymmi, pela sua presença aqui no Sombaratinho. Obrigada a você, Márcio Proença, por esse espaço tão bacana que é o Sombaratinho. Bjs.

Show com Alice Caymmi

ALICE CAYMMI no BAR SEMENTE

Rua Joaquim Silva, 138,  Lapa, Rio de Janeiro - RJ, 
Fone: (0xx)21 9781-2451
Quintas-feiras de março/12 - dias 01, 08, 15, 22 e 29
Couvert Artístico R$ 20,00

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Entrevista com Geraldo Azevedo (2012)


A música de Geraldo Azevedo e as diversas vozes do Rio São Francisco

Por Márcio Proença
Fotos: Sérgio Ricardo Silveira

O cantor, compositor e violonista, Geraldo Azevedo está com o seu projeto intitulado “Salve São Francisco”, em que vem acompanhado de grandes nomes da nossa canção como: Djavan, Ivete Sangalo, Maria Bethânia, Dominguinhos, Moraes Moreira, Alceu Valença e diversos outros nomes, sendo as vozes do São Francisco, fazendo uma homenagem com músicas que têm como tema esse, que para ele e muitos, é o maior rio do Brasil.

O álbum conta com a luxuosa produção musical de Robertinho de Recife, renomado guitarrista que buscou dar toda uma sonoridade especial para obras primas nesse projeto como, “Barcarola de São Francisco”, música presente em vários discos de carreira de Geraldo Azevedo.

Idealizado por Geraldo, produzido pelo selo Geração e distribuído pela gravadora Biscoito Fino, além do CD, há também o registro do DVD, de mesmo nome, porém, contando com a captação de diversas imagens do rio homenageado, registrando os depoimentos de todos os artistas que participam do projeto.

Muito bem assessorado por sua filha Gabriela Azevedo, dono de um alto astral contagiante, irreverente e atencioso, sempre com violão em punho, Geraldo Azevedo me abriu as portas de sua casa, no Rio de Janeiro, para me ceder essa entrevista falando de suas influências musicais, de sua carreira artística e de seu projeto atual.

Geraldo, da sua família, de quem você herdou essa musicalidade? Márcio, na verdade toda a minha família tem musicalidade. Meu pai tocava violão e também era marceneiro, e minha mãe, cantadeira local. Todos os eventos religiosos que aconteciam ela era chamada para participar cantando. E ela tinha uma escola de alfabetização, e colocava os alunos para cantar. Na escola sempre faziam momentos culturais como teatro, música. Lembro-me que o meu primeiro palco foi a escola da minha mãe, pois ela colocava os alunos para participar dos eventos de fim de ano e me pedia para cantar ainda muito cedo. Assim, talvez por conta disso, em todas as escolas em que estudei, sempre cantava nas festas. Eu também tinha um tio que tocava violão por parte da minha mãe e quando ele nos visitava fazia uns saraus onde eu sempre tinha participação.

Você, nessa época, já pensava em ser profissional? Não era uma coisa que eu tinha como profissão. Porque nós não tínhamos essa noção, entendeu? A coisa foi me levando. Eu não pensava em ser um artista de renome, profissional.

E com o violão mais complexo, quando você teve o primeiro contato? Pois é, eu, até os meus treze, quatorze anos, morava na roça. Quando completei quinze comecei a estudar em Recife. E naquele tempo, quando surgiu a bossa nova, foi que o meu interesse pelo violão ficou muito mais amplo, devido ao fato de eu tentar entender aquelas harmonias, aqueles acordes dissonantes que eu achava bonito. Mas eu não tinha professor, e assim, comecei a trabalhar o meu violão sozinho.

As suas influências como cantor, quais são? Dois grandes nomes que me influenciaram foi João Gilberto e Roberto Carlos. Roberto, aliás, estava no início de carreira. E como muitos sabem, antes da jovem guarda, Roberto gravou bossa nova no primeiro disco dele. Era onde se começou a dar valor a uma voz íntima, onde não precisava ser de voz grande. Dizem que o Mário Reis foi o precursor dessa nova forma de canto, mas vim tomar conhecimento mesmo com João e Roberto. Também gostava e ainda gosto muito do saudoso Agostinho dos Santos. São essas pessoas me influenciaram. Mas eu não gostava da minha voz, porém, com o tempo, foi que eu vim me acostumando com ela.

Como se deu a sua vinda para o Rio de Janeiro? A cantora Eliana Pittman foi a responsável pela minha mudança para o Rio. Ela me conheceu cantando e tocando em Recife. Depois de um tempo, ela começou a fazer um trabalho solo e queria que no show tivesse uma atração especial e me chamou. Mas Eliana tem um repertório muito americanizado. Já eu, uma ligação muito forte com a cultura brasileira, mais regional, com os movimentos de cultura popular.

E o Geraldo Vandré, autor de “Pra não dizer que não falei das flores” e também parceiro seu em “Canção da despedida”? Depois do Festival da Canção, em que Geraldo Vandré foi o real vencedor por parte do público, perdendo o primeiro lugar para a música “Sabiá”, composta por Tom Jobim e Chico Buarque, em 1968, ele chamou um grupo em que eu participava para acompanhá-lo em diversos shows. Esse grupo se chamava “Quarteto Livre” e era formado por mim, Naná Vasconcellos, Franklin da Flauta e Nelson Ângelo. Mas ele teve aquele problema todo com o AI5 e já estavam à procura de Vandré por todo o país. Daí ele saiu para a clandestinidade e eu do grupo. Arrumei um emprego de desenhista. Até que apareceu o Alceu Valença, formou comigo uma dupla e definitivamente entrei para a música com uma consciência ainda maior.

E como foi a sua prisão por perseguição política? Na prisão eu refletia muito sobre o que estava acontecendo na minha vida. Minha primeira prisão durou quarenta dias. E na segunda, a mais violenta, em 1975, no governo de Ernesto Geisel, eu passei doze dias. Mas quando eu saí, saí com outro gás. Teve até uma ironia, que um ano depois dessa minha segunda prisão, eu gravei o meu primeiro disco solo, e o Geisel levou para a viagem dele à Alemanha, como exemplares da cultura brasileira, o meu disco e um de Villa-Lobos. Contudo eu consegui exorcizar toda uma mágoa, sob um processo de ódio. Na primeira vez em que fui torturado, eles – os torturadores – não usavam capuz. Então você via o torturador te dando choque elétrico, porrada etc. Havia uma impotência muito grande, pois você ficava algemado sem poder fazer nada. Até que um dia eu me toquei que aquele ódio estava me fazendo muito mal e decidi perdoar aquele cara, pois ele é quem tem problema. Eu estou saudável, vivo. Na segunda prisão eu nem quis saber quem estava me torturando. Entretanto, confesso que na verdade tenho um sentimento de pena de ver uma pessoa vivendo daquele jeito, fazendo as pessoas sofrerem.

E sobre a sua recente anistia? Eu fico muito feliz com tudo isso. Teve até crítica de jornal afirmando que nós, os anistiados, estávamos sendo oportunistas. Na verdade eu queria que o Estado reconhecesse a arbitrariedade que foi cometida contra mim, pois isso me deixou seqüelas. Eu tenho marcas de porrada, choque elétrico. Fora a censura em meus trabalhos musicais. A própria música “Canção da despedida”, de minha autoria com Geraldo Vandré, foi censurada por quase vinte anos. Por fim ela é cantada e ninguém imagina a história que tem por de trás daquela letra. Pensam que é uma canção de amor.

Qual o seu maior sucesso reconhecido pela grande público? É “Táxi Lunar”. Lembro-me que fui a muitos programas como Chacrinha, Hebe Camargo por causa dessa música. Mas “Dia branco” também é um dos meus hits. “Táxi Lunar” é uma obra que tem muitas regravações e não posso deixar de tocar em meus shows. Sempre que eu a toco há uma interação enorme por parte do público.

Já que estamos falando sobre “Táxi Lunar”, fale sobre o “Bicho de Sete Cabeças” que para mim é o álbum divisor de águas na sua carreira. Esse é o disco em que assumo ainda mais a postura de band leader e uma sonoridade muito além da bossa nova que hoje em dia é considerado world music. Esse álbum define em eu usar o eletrônico com maior eficiência, pois o meu primeiro disco foi todo acústico, com orquestra etc. Existem no Bicho de Sete Cabeças as participações de minha mãe, Dona Nenzinha do Jatobá, na música “Natureza Viva”, de Elba Ramalho em “Bicho de sete cabeças II” e efetivamente, Zé Ramalho e Robertinho de Recife estão presentes em todas as bases. Nos coros estão presentes: Amelinha, Terezinha de Jesus, Elba Ramalho. Falando sobre esse disco importante em minha carreira, me leva a falar de uma situação que não é reconhecida no cenário histórico. Sempre teve a Bossa Nova, O Tropicalismo, que, aliás, foi um movimento que se limitou a Caetano, Gil, Rita Lee e outros poucos. Mas teve a ascensão dos nordestinos, na década de oitenta, onde surgiram: Eu, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Alceu Valença, Fagner, Belchior, Amelinha, Cátia de França, Ednardo. E foi um movimento muito importante na música brasileira. Contudo, pelo simples fato de não ter havido um rótulo para definir esse movimento, ele não se sustenta como um momento especial na história da nossa canção. Entretanto, se você fizer uma análise com seriedade, vai ver que aquele momento foi importante sim, pois tem toda uma nova abertura, que você está reconhecendo no Bicho de Sete Cabeças, mas ali é apenas um presságio para todo um movimento que estava surgindo naquela época.

Márcio Proença e Geraldo Azevedo
Com exceção do disco “Cavalo de Pau”, do Alceu Valença, que era pela Polygram, a gravadora CBS teve uma grande participação nesse movimento, pois a maioria desses artistas como Fagner, Amelinha, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Ednardo, João do Vale, Cátia de França, Robertinho de Recife, Elba Ramalho, fazia parte do casting da CBS. Para mim, ela foi muito visionária. Você tem toda razão. Esse movimento foi centralizado na CBS. E o Fagner tem uma grande importância nesse momento. Ele foi o mais agregador de todos, pois teve um período em que ele foi o diretor artístico da CBS e contratou essas pessoas todas. Estou falando com muita seriedade, pois com relação ao Fagner tenho algumas restrições, mas não posso tirar o valor dele nesse momento.
   
Capa do DVD Salve São Francisco

E vamos falar agora sobre o seu mais novo projeto o CD e DVD “Salve São Francisco”. Fale o que você quiser. Esse é um projeto que já rondava minha cabeça por muitos anos, desde antes da transposição. O São Francisco é o rio da integração social. O maior rio do Brasil. Fala-se do rio Amazonas, mas o Amazonas é um rio continental, não é um rio brasileiro. Ele nasce na Cordilheira dos Andes, no Peru. Já o São Francisco tem sua nascente na Serra da Canastra, em Minas Geraes. E tem essa coisa do turismo.

Há uma falta de cuidado com esse rio, não? Há.

E para o disco, como foi a escolha do repertório? Escolhi as músicas que tinham como tema o rio São Francisco, entre elas: “Barcarola de São Francisco”, “Santo Rio”, “Águas daquele rio”, “Riacho do navio”, “O ciúme”, entre outras. Tem um coro de crianças maravilhoso na faixa “São Francisco são”, onde também tem a participação da cantora Márcia Porto. Foi lindo! Estivemos em Portugal, na Conferência de Gaia, onde passamos esse clipe e foi o maior sucesso. Queriam até comprar o vídeo. A direção musical é toda de Robertinho de Recife.

Como se deu a idéia do DVD? Foi idealizado contendo não só os depoimentos dos artistas que cantam comigo, mas também dos autores das músicas como Capinan, Galvão que falam sobre o rio São Francisco. Nele contém imagens do rio, dos artistas em estúdio cantando comigo. No encarte do cd estão escritos os depoimentos que todos os cantores fazem no DVD.

O arranjo da música “Barcarola do São Francisco”, que você interpreta com Djavan, está bem diferente de todos os registros anteriores, inclusive dos seus álbuns de carreira. Eu queria fazer algo mais ousado com relação a essa música, pois desejava dar uma outra cara para ela. Como você bem sabe, eu tenho regravada essa música em diversos álbuns meus de carreira, mas sempre com a mesma harmonia. A participação de Djavan faz toda uma diferença. 

Qual foi o critério para selecionar os artistas que participam do disco? O critério foi que teria de ser artistas que fossem naturais dos estados por onde passa o rio. De Minas Geraes, chamei Fernanda Takai, apesar dela não ter nascido em Minas, pois ela é natural do Acre, ela representa Minas Geraes nesse projeto, embora a primeira pessoa em que pensei fosse Milton Nascimento que, apesar de não ser mineiro, é do Rio de Janeiro. Para mim, Milton é a voz de Minas Geraes. Da Bahia tem Bethânia, Ivete Sangalo, Roberto Mendes, Márcia Porto, Moraes Moreira e Vavá Cunha. De Pernambuco, Eu, Alceu Valença, Dominguinhos e Geraldo Amaral. De Alagoas, Djavan. Infelizmente não temos ninguém de Sergipe, que é por onde o rio também passa.

Em relação ao seu vasto repertório, você sente saudade de alguma música composta por você? A minha filha Clarice tem me resgatado muitas músicas quando a gente faz saraus juntos. Tem música que é bom relembrar, mas outras precisamos ouvir novamente. O que acontece é que todo disco que você lança, nem todas as músicas daquele álbum você vai cantar. Aí você escolhe para o show aquela música que tem um apelo maior. Algumas dessas se tornam sucesso, outras nem tanto. E existem aquelas que você nunca canta. Por exemplo, “Bossa tropical” e “Plano romântico”, do álbum “Bossa Tropical”, eu nunca cantei em show.


Qual a música do seu repertório que representa você? Rapaz! “Chorando e cantando”, será que representa? “Dona da minha cabeça”... Eu tenho muita diversidade e maneira de cantar e tocar. Por exemplo, a música “Menina do Lido” é algo que só quem faz sou eu. Nunca vi ninguém tocar daquela forma. É algo muito particular. Acredito que durante esse tempo todo vim criando um estilo no qual influenciou uma geração de músicos que se espelha no meu trabalho e no meu jeito de tocar violão.

Deixe uma palavra para os leitores do Sombaratinho. Eu acredito que quem está começando tem que ter orgulho dessa cultura brasileira, da grandeza e riqueza que o Brasil tem, das diversidades musicais, das manifestações que o Brasil representa. Que a gente aprenda com todo esse teor de cada povo, de cada região, de cada lugar, porque o nosso país tem uma biodiversidade fantástica. Tem uma diversidade rítmica que nenhum outro tem. Então temos que nos orgulhar muito e acreditar no que estamos fazendo, no que se faz, no que se pode fazer a partir dessa riqueza cultural, social e política que podemos aprimorar cada vez mais. E é só levar fé e amor pro que der e vier. 

Site Oficial de Geraldo Azevedo: http://www.geraldoazevedo.com.br

Nota do entrevistador

Simpático e muito atencioso, Geraldo Azevedo me permitiu gravar, com exclusividade para o Sombaratinho, ele mesmo tocando e cantando alguma de suas músicas, dando-nos a honra de participar em um "Coro de desafinados" formado por: Márcio Proença, Sergio Ricardo de Oliveira, Leandro Machado, na música "Dona da minha cabeça" (Geraldo Azevedo e Fausto Nilo).

Abaixo, ouça "Dona da minha cabeça", ao vivo na casa de Geraldo Azevedo

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Entrevista com Mônica Salmaso, Teco Cardoso e Nelson Ayres (2012)


Alma Lírica Brasileira, uma conversa entre amigos

Por Márcio Proença

Intérprete de timbre marcante, artista exigente que prima por um trabalho nada convencional aos padrões da chamada música comercial, a cantora Mônica Salmaso vem trilhando um caminho de sucesso no meio artístico, tendo em sua carreira participação especial em diversos projetos como: Orquestra Popular de Câmara (Grav. Núcleo Contemporâneo/1998) e de álbuns de grandes nomes como Chico Buarque, em "Carioca" (Biscoito Fino/2006).

Natural da cidade de São Paulo, Salmaso, com todo o talento, vem ao longo de sua carreira colocando no mercado fonográfico discos que são verdadeiras obras-primas. O seu álbum de estréia "Afro-Sambas" (Independente/1995) tem ninguém mais que o conceituado violonista Paulo Bellinati, recriando uma obra que foi vanguarda na década de 60, unindo voz e violão na essência da música de Baden Powell e Vinícius de Moraes, resgatando, na íntegra, um momento fundamental da história da MPB de forma profundamente autoral e moderna.

Vinda do sucesso da turnê “Noites de gala, samba na rua”, que lhe rendeu um cd e dvd, Mônica Salmaso se une aos músicos Teco Cardoso (sopros) e Nelson Ayres (piano) - músicos oriundos do grupo instrumental Pau Brasil - para brindar seu público com o conceituadíssimo álbum "Alma Lírica Brasileira", pela gravadora Biscoito Fino, casa em que está presente desde 2008.

Embora tenha como tema o lirismo, “Alma Lírica Brasileira” foge do academicismo e firma-se com toda finesse no âmbito popular trazendo à tona clássicos conhecidos do grande público como é o caso de "Melodia Sentimental" (Heitor Villa-Lobos e Dora Vasconcellos). Entretanto, o trio de músicos dá um novo bordado aos versos e melodia de “Lábios que beijei” (Álvaro Nunes e Leonel Azevedo), escreve uma página da MPB com a inédita “Noite” e a instrumental "Veranico de maio", ambas de Nelson Ayres. Corajosamente consegue extrair algo mais do “Trem das onze” de Adoniram Barbosa e ainda traz à tona a rara “Samba erudito” de Paulo Vanzolini. 

Num repertório, que realça a beleza musical brasileira com interpretações memoráveis, é evidente e imprescindível afirmar que tal obra não seria a mesma, caso fosse com músicos que não Nelson Ayres e Teco Cardoso que, unidos a Mônica Salmaso, plenos dos pés à cabeça, ou como diz Caetano Veloso, “do cóccix até o pescoço”, põem seus talentos a serviço do resgate da verdadeira música popular desse país. Prova maior disso é a bela interpretação – e recriação – para “Cuitelinho” que mantém toda a simplicidade e regionalismo naturais dessa composição do folclore popular, recolhido pelos compositores Paulo Vanzolini e Antônio Xandó.

Duas horas antes do show no Teatro Rival, no Rio de Janeiro, em dezembro de 2011, fui recebido por esses três grandes músicos que foram super gentis e atenciosos para uma entrevista falando sobre esse trabalho que vem há mais de um ano sendo apresentado por palcos brasileiros.

Caros leitores, com vocês: Mônica Salmaso, Teco Cardoso e Nelson Ayres

Mônica Salmaso, primeiramente eu gostaria de agradecer em nome dos leitores do blog Sombaratinho a presença de vocês três aqui nesse espaço. Como se deu sua iniciação profissional no universo da música?
Olha, Proença, eu estudei canto muito tarde. Gostava de cantar, mas não considerava para mim uma possibilidade profissional. Não sabia de alguém que fosse músico. Não sabia como alguém era cantor. Na época em que eu estava pensando nisso não existiam as gravadoras pequenas. Então, cantor era uma pessoa que estava ligada a uma exposição de televisão, principalmente. E isso era absolutamente longínquo para mim, paulistana, pois pensava que fosse algo mágico. Confesso que eu não pensava nisso, pensava que eu ia ser jornalista. Aí fui fazer uma aula de canto num momento terrível de cursinho pré-vestibular, uma coisa tão agressiva para mim, pois eu não tinha nada a ver com aquele negócio de decorebas para passar no vestibular. Contudo, naquele mesmo tempo resolvi fazer aula de canto que era algo que eu gostava, sem a menor pretensão profissional, mas sim de me divertir um pouco. Daí eu conheci uma pessoa que não era cantora notória, mas que assinava como profissão: cantora. Ela fazia jingles, tinha um trabalho autoral na medida que era possível naquele momento e dava aula de música, de canto. Isso me fez chegar à conclusão de que dava para ser cantora profissional. Então, eu comecei a trabalhar e até a cursar uma faculdade meio chulé de música. O meu interesse de cantar vinha desde a minha infância. Achava lindo, cantava com os discos. E sempre tive um repertorio grande de música através dos discos que meus pais tinham em casa e aquilo era uma paixão, pois eu me envolvia. Essa referência da minha professora de canto me deu um calor e concluí que eu poderia seguir uma carreira mesmo não sendo aquela da televisão.

E a produção desse álbum “Alma lírica brasileira", como surgiu a ideia? Quem produziu esse disco de vocês? Eu digo de vocês, com todo respeito à Mônica, mas o disco tem uma impressão absurda que não tem como desassociar. Isso ficou super claro para mim.
Teco Cardoso Isso teve um crescimento quase orgânico, porque já estávamos trabalhando juntos há uns dois ou três anos na turnê do disco anterior “Noites de gala, samba na rua” que é todo sobre a obra do Chico Buarque que a Mônica fez com o quinteto Pau Brasil que é de onde eu e o Nelson Ayres fazemos parte. E na estrada, passando o som, lembrando de uma música ou de outra fomos convidados para fazer um show em um lugar pequeno e não tinha orçamento para todos, então, resolvemos fazer um trio. Já no primeiro ensaio tivemos algumas idéias. E daí veio surgindo um repertório para nós três.

Pois é, e daí tem o fato de que vocês se conhecem muito bem musicalmente, não é? 
Mônica - Sim, com certeza, Proença. Em um trabalho como esse é diferente de você falar que tem uma cantora com seu repertório, tendo que explicar aos músicos do que se trata. Aqui a ideia é direta. Vamos fazer uma “Melodia sentimental” porque eu sei que vamos fazer uma bonita versão dessa obra-prima do Villa-Lobos, entendeu? Porque essa música está no nosso universo e gosto musical. E assim para todas as músicas que compõem não só o disco, mas também o show. A gente conhece como cada um toca e canta, qual o universo estético de cada um, ainda mais, afinados pelo tempo que a gente vem trabalhando junto.

Isso mesmo. Esse disco foi fácil de ser feito. Eu notei isso.  
Mônica – Até mesmo muito fácil de escolher o repertório, muito fácil de arranjar e gravar pelo fato de que temos um histórico enorme de vivência musical e de estrada. Então, não se faz uma coisa assim do dia pra noite, entendeu? É como uma cozinheira que inventa um prato, que na verdade, não está inventando um prato, pois ela pelo fato de trabalhar tanto tempo que aquele prato novo é uma decorrência do conhecimento dela. Esse disco é uma sensação plena de ser uma coisa que nós três sabemos fazer.

Teco Cardoso

E qual a reação da gravadora Biscoito Fino quando ouviu o trabalho? 
Teco Cardoso – na verdade a Biscoito fino e a Mônica têm uma relação maravilhosa, pois a ela (Mônica Salmaso) não é do Rio de Janeiro e tem uma carreira mais autoral, mais pequenininha, principalmente para os padrões de sucesso do RJ que é uma cidade que lança nacionalmente os seus artistas. Mesmo que não moram, vem pra cá e daqui gravam seus discos e se tornam grandes nomes.
Mônica Salmaso – Isso. Eu estava lá em São Paulo e daí surgiu um convite para conversarmos com a Olívia Hime e a Káti Almeida que disseram gostar muito do meu trabalho e que queriam que eu fizesse parte do cast da gravadora, que na época estava começando e fizemos um contrato para três discos. E elas, Márcio, jamais foram contra o que eu sempre propus. Eu também entendi o tamanho da gravadora e da estrutura que ela dispõe e disponibiliza para o meu trabalho e desde então temos uma relação perfeita, que está dando certo  até hoje. Quando nós fizemos esse show e os outros que apareceram, e o repertório foi se formando, chegou uma hora em que tive a sensação de que é isso que a gente sabe fazer e então quis registrar, pois isso é a alma lírica brasileira. Pra mim isso tem um sentido diferente de olhar o Brasil de um jeito de entender o lirismo que não é academicista, e sim, do ofício como se fosse uma pessoa que pega uma agulha de croché e com isso cria uma coisa que só quem sabe fazer faz. 

Capa do Disco Alma Lírica Brasileira 

Foi dessa ideia do croché que se deu a capa do álbum? 
Monica - Sim. A música "Lábios que beijei" é uma valsa da década de 30 ou 40 que toda vez que eu cantava tinha essa imagem. Cantando a melodia, a letra, eu via um bordado, uma pessoa bordando.
Nelson Ayres - Os arranjos que a gente tocou é tudo amarrado em um plano igual. Não tem uma cantora acompanhando. São amigos fazendo música juntos num mesmo bate-bola. É uma troca de ideia de pessoa igual. É uma coisa criada em casa, no piano. A gente veio criando os arranjos.
Teco Cardoso - Não tem um arranjador, Proença.

Nelson Ayres

Nelson, e qual a música que foi a primeira que vocês decidiram que não deveria estar fora do repertório? 
Nelson Ayres - Foi "Melodia Sentimental", do Villa-Lobos.
Mônica Salmaso - Foi mesmo. Aí pensamos que essa tinha que estar mesmo.

E a música "Noite", de sua autoria, Nelson Ayres, como a Mônica e o Teco tomaram conhecimento? Ela é a única inédita no álbum, não é? 
Nelson Ayres - Sim, ela é a única inédita. A melodia eu fiz para um musical há muito tempo. E daí fiquei com essa melodia na cabeça. Durante muitos anos vim costurando uma letra. Escrevia uma frase ou outra...
Mônica Salmaso - Essa música surgiu num intervalo de um ensaio, e do nada o Nelson veio e tocou alguma coisa que chamou a atenção minha e do Teco e o Nelson disse que era uma música que ele havia feito há muitos anos e que, nossa! fazia anos que ela estava guardada e que não sabia como havia lembrado dela naquele momento. Aí eu pedi para que ele tocasse novamente e ele tocou. Bem ao término dele ter tocado novamente eu perguntei: "Essa música você compôs letra e música?" e ele dizendo que sim, mas que já havia muito anos. E eu: "Nossa! Mas que criança talentosa, Nelson, tão jovem!" (risos). Márcio, essa música grudou na minha cabeça por uns dez dias, que eu comecei a ficar com medo a ponto de pensar que era caso terapêutico e lembrava que tinha que cantar outras coisas e a música lá, na minha mente. E daí aconteceu um fenômeno bonito. Conforme a gente ia fazendo os shows e depois o disco, ela (a música) estava naquele baú e quando eu a via pensava: que judiação! daí fomos fazendo e ela foi respirando e agora vivemos super bem uma com a outra (risos)

Isso é um ritmo meio Caymmi, não? 
Nelson Ayres - Sim. Mas acontece que eu não sou compositor nesse aspecto e muito menos letrista. Eu tinha uma ideia muito clara da letra etc., mas vim trabalhando nessa obra por uns seis ou sete anos. Aí ficou pronta e deixei ali no canto. Quando pintou essa ideia do show eu mostrei para a Mônica...
Monica - Na mesma hora que a gente ouviu  e gostou. Mas foi muito engraçado. 

Nesse show vocês interpretam músicas de outros álbuns da Mônica Salmaso? 
Mônica Salmaso  - Sim. Mas é todo repertório do "Alma Lírica", "Ciranda da bailarina" que faz parte do disco "Noites de Gala, samba na rua", "Valsinha" do "Voadeira" e "Minha palhoça" do cd "Nem 1 Ai". Além disso, tem também o "Véspera de natal" de autoria de Adoniram Barbosa que não está em nenhum disco de minha carreira.

Mônica Salmaso
Mônica, além da voz, você toca algum outro instrumento? 
O meu filho diz que eu toco um tamborzinho. Inclusive faz tempo que eu não faço isso. Eu tocava um pouco de violão para ser um instrumento de apoio para eu cantar. Então, eu tirava músicas no violão, via tons no violão... mas jamais me apresentaria tocando violão. Devido à minha timidez gestual no palco, para mim sempre foi muito incômodo ter duas mãos abanando enquanto eu estou cantando. E eu tive um convivência muito grande com alguns percussionistas  porque eu e o Teco fazíamos parte da orquestra popular de câmara que tinha quatro percussionistas muito bons, ótimos! Daí eu comecei a pegar um tamborim aqui, um negocinho ali, tentei aprender um pouco de pandeiro... mas encontrei uma forma de executar esses instrumentos sem o som de um percussionista profissional, entende? O que acontece é que nesse álbum a percussão é também um apoio. Ela não tem criação, nem execução de alguém da área. É pra ser assim, tímida (risos).
Teco Cardoso - E o legal é que ao vivo é exatamente como está no disco, não tem overdubs.  O que gravamos, fazemos no palco.

Todos sabem que o tipo de trabalho que vocês fazem, não é o que vende milhões de discos. Aliás, a gente sabe que ninguém hoje vende disco. O que vocês acham do download de música através de blogs?
Mônica - Tem duas coisas, Proença. Primeiro a Internet viabiliza uma distribuição e divulgação espontânea, que não existe mais de outra forma. Ela, a distribuição, é potencializada pelo fato de que a Internet é a globalização. Você poder fazer parte de redes sociais...

Você faz parte de alguma rede dessas? 
Eu não. Não tenho tempo para administrar isso. Só tenho e-mail e site. Mas tenho inúmeros amigos que têm. E esses amigos me contam coisas, números. É um número muito absurdo que te potencializa. Isso é bonito pra caramba, pois, de fato, nunca alcançaríamos outros países de outra forma. Você pega esse trabalho, mostra uma música em uma rede de relacionamento, pode acontecer de isso ter um índice muito grande. As dificuldades físicas e distribuição do disco propriamente são nulas. A Internet é maravilhosa! Para mim, o tipo de trabalho que eu tenho,  até a pirataria é uma ótima jogada. Ela também é uma divulgadora. Olha, Proença, foram muitas as vezes em que eu cheguei no show em alguma cidade em que eu nunca tinha estado e quando vou vender os meus discos, aí alguns diziam que tinham os meus álbuns todos baixados. Mas elas ficavam felizes dizendo que agora podiam comprar. Essa relação com a música, com o artista e com o trabalho é muito diferente de uma relação com uma música que está na novela agora e depois vai desaparecer. Então, o cara quer aquela obra da novela de qualquer jeito, ele pega de qualquer forma, não tem uma relação  com aquele trabalho. Ele não precisa de papel, olhar a foto. Ele só quer ter a música no Ipod e pronto. Eu vi isso acontecer comigo milhões de vezes. Então, no caso de uma carreira como a minha, a pirataria não é um inimigo. Especificamente como um trabalho igual ao meu, que não tem o sucesso imediato, explosivo, que a música fica durando pra sempre e que o disco às vezes tem dificuldades para chegar. 

E os direitos autorais, como ficam nesse processo de download etc.?
Nelson Ayres - Muito bem lembrado, Proença. Primeiramente, me parece que o universo dos direitos autorais tem melhorado bastante nos últimos dez, quinze anos. O recolhimento do ECAD é um deles. Agora na minha vida, tanto quanto instrumentista e compositor, os grandes piratas foram as gravadoras e as editoras. Nunca recebi um tostão de tudo que eu gravei, de tudo que eu compus, via editoras das grandes gravadoras. Eles, sim, são os grandes piratas. Então, meu nobre amigo, vamos para os pequenos piratas, não é? 

Mônica, você  participou do festival de música da Rede Globo, não foi isso? 
Sim.

Você acha que aquilo deu uma impulsionada na sua carreira? 
Olha, aquele evento jogou uma sementinha. Foi uma coisa muito sofrida. A Globo tinha muita aflição em relação ao festival. Eles tinham uma expectativa comercial encima dele, que é normal em qualquer coisa. A televisão está vinculada ao sucesso comercial. O comercial quando eu digo são os anunciantes. Aquele festival não teve espaço para respirar, entende? Não podia ser mais ou menos. Então eles ficaram forçando uma barra para que aquilo fosse uma coisa que não era. Não estava acontecendo aquilo naquele momento. Não iria ser como um festival da Record, nos seus tempos áureos. Inclusive a própria televisão não tem  espaço nenhum para a música de qualidade. O espaço que tem é de madrugada. Então, colocar um festival às dez da noite não revolucionou a relação do público com a músico a ponto de ser o que eram os festivais. Lembro-me que a cada eliminatória a coisa ia ficando mais tensa.

E afinal, qual foi o seu único interesse naquele evento? 
Pois é, Márcio, o meu objetivo era mostrar o meu trabalho como ele é. Era claríssimo para mim que eu iria ter numericamente um exposição que eu não conseguia alcançar com minha pequena estrutura, nem comigo indo sozinha, pessoalmente, entendeu? Eram quatro minutos em um horário onde todos têm a televisão ligada. E eu adoraria que todos ouvissem o meu trabalho. Não podia ser ideia de um produtor dentro do festival. Eu fiz de um jeito, a duras penas, eu escolhi a música, levei os músicos com quem eu trabalhava, a minha roupa, a minha maquiagem etc., brigando e brigando para conseguir fazer assim sem ofender a ninguém. Contudo, aqueles quatro minutos em que me apresentei eram bonitos. Não aconteceu grandes coisas, mas naquele momento ali foi uma sementinha que eu joguei. Tinha gente no Acre, que é muito longe da minha casa (risos) e que tinha assistido aquilo ali. Então, nesse sentido valeu a pena, sim. 

Você recebe muitas composições inéditas para gravar?
Recebo. Milhares. 

São músicas boas?
Muitas não são. Acontece que tem muita coisa que não tem nada a ver comigo. Entendo também que seja a chance que um compositor tem em vir e mostrar o trabalho dele. Eu agradeço, mas nem tudo é legal.

Obrigado pela entrevista, Mônica Salmaso, Teco Cardoso e Nelson Ayres
Nelson - Nós é que agradecemos.
Teco - É sempre bom ter um espaço para a música de qualidade.
Mônica - Márcio Proença, muito bom! Obrigada pela oportunidade. Siga em frente e aos leitores nosso abraço caloroso.



Nota do entrevistador

Após a entrevista, esperei o início do show do trio no Teatro Rival. Não resisti e deixei meu gravador ligado, registrando um momento maravilhoso!

Abaixo, deixo, na íntegra e sem cortes, faixa única, a belíssima e divertida apresentação do show "Alma Lírica Brasileira" com Mônica Salmaso (Voz e percussão), Teco Cardoso (sopros) e Nelson Ayres (piano), no Teatro Rival, em dezembro, 2011, RJ. O link para download do show está em comentários.













Faixas

01)  Melodia Sentimental (Heitor Villa-Lobos e Dora Vasconcellos)
02)  Samba Erudito (Paulo Vanzollini)
03)  Fala de Mônica Salmaso
04)  Lábios que beijei (Álvaro Nunes e Leonel Azevedo)
05)  Ciranda da bailarina (Chico Buarque)
06)  Mortal Loucura (José Miguel Wisnik)
07)  Cuitelinho (folclore popular recolhido pelos compositores Paulo Vanzolini e Antônio Xandó)
08)  Fala de Mônica Salmaso
09)  Veranico de maio (Nelson Ayres) - Instrumental
10)  Noite (Nelson Ayres)
11)  Minha palhoça (J Cascata)
12)  Fala de Mônica Salmaso
13)  Véspera de natal (Adoniran Barbosa)
14)  Meu rádio e meu mulato (Herivelto Martins)
15)  Promessa de violeiro (Raul Torres e Celino)
16)  Casamiento de negros (recolh. e adapt. de Violeta Parra)
17)  Derradeira primavera (Tom Jobim e Vinícius de Moraes)
18)  Carnavalzinho (Lisa Ono e Mario Adnet)
19)  Fala de Mônica Salmaso
20)  A história de Lily Braun (Edu Lobo e Chico Buarque)
21)  Palmas do público (Bis)
22)  Valsinha (Chico Buarque, Garoto e Vinícius de Moraes)
23)  Trem das onze (Adoniran Barbosa)